A AMAZÔNIA PRODUTIVA E O PAPEL DA CIÊNCIA





*Paulo Renato Haddad



Pensando aqui nestas discussões amazônicas, e em tudo que se diz em termos científicos e empíricos, até mesmo nas discussões de boteco.... E, talvez, estas últimas mais interessantes que as demais. Nesse diapasão, penso que nós Brasileiros cedemos aos encantos do ser emocional e relegamos o ser racional - continuamos a pensar apenas emocionalmente.


A Amazônia é nossa! E isso basta.


Não, não basta.


Vamos pensar bem além da caixa, como dizem. A população mundial continuará a crescer exponencialmente ao menos até meados dos anos 2040. Podendo significar algo próximo a uns 13 bilhões de pessoas. Assim, será necessário dobrar a produção de alimentos. (segundo a FAO)

As áreas cultiváveis do planeta, capazes de suprir essa crescente demanda estão nos trópicos. E nós com ao menos 20% desse total de áreas cultiváveis. De fato, o Brasil sozinho pode responder com no mínimo 20% dessa demanda global. Mas precisamos ser estratégicos, pois nossa maior área para expansão na produção de alimentos está na região amazônica. E queiram ou não, é um delicado ambiente formado por diversos ecossistemas. Com florestas densas de terra firme, florestas estacionais, florestas de igapó, campos alagados, várzeas, savanas, refúgios montanhosos e formações pioneiras. Conhecida por sua exuberância e pela pobreza de seus solos, há informações de que menos de 17% destes, são aptos a produção intensiva. Mas há conhecimento também, que seu sistema florestal é preponderante para as águas. Temos aí então, os dois principais insumos a produção – terra e água.


Nossa riqueza para produção agropecuária na região amazônica está em sua capacidade de gerar serviços ambientais os mais variados e importantes possíveis. Desde a polinização pelas abelhas, que precisam de ambiente saudável para cumprirem com seu trabalho, à riqueza do carbono acumulado no solo – sim, isto mesmo, a parte mais elevada do solo amazônico contém boa quantidade de carbono acumulado e, que se fosse inteligentemente trabalhada, poderia inclusive ser vendida como estoque de carbono, além de ser importantíssimo para o crescimento vegetal. Portanto, a floresta e seu papel preponderante na formação e acumulação de água deve ser mais bem compreendida, estudada e tratada de acordo às necessidades da produção “ad continuum” e não somente para a próxima safra. Não se trata de retórica ou discurso ambientalista cego, nesse caso, o discurso ambientalista é produtivo. Temos que considerar ainda que não há necessidade de corte raso para diversos tipos de produção, nem para os grãos em escala (soja, milho, girassol, algodão, arroz – estes principalmente) há que se trabalhar um mosaico estratégico que não nos prive da agricultura familiar, seja por questões sociais seja por questões econômicas. Não podemos prescindir da alimentação no prato em nossa mesa, onde mais de 70% são itens da agricultura familiar e, não podemos correr o risco de bolsões de pobreza, fome e centros urbanos mais inflados com cidadãos pouco ou nada qualificados para aqueles mercados de trabalho.


Sendo assim, entendo que a melhor maneira de tratar a situação é pondo luz, muita luz sobre ela. Há quem diga que o melhor detergente é a luz e, nesse caso, a ciência. Quanto de fármacos e outros produtos que poderiam ter sido descobertos não foram perdidos pelas queimadas?


A bioeconomia poderia nos dar inúmeras patentes com inovações de ponta na economia mundial.


Então defendo a ciência e quero falar de Rondônia, talvez o Estado Amazônico mais propenso ao Centro-Oeste.


O estado teve sua formação acelerada na época do “Integrar para não Entregar” na década de 70 e robustecida com o “Plante que o João Garante”, slogans que marcaram este início do novo Estado de Rondônia, que se estabeleceu em 1982. E a partir daí, entre ciclos recorrentes e a explosão do garimpo de ouro, não tem uma colonização equânime, planejada e justa.


Entre altos e baixos dos ciclos econômicos, Rondônia chegou aos anos 2000 identificando a agropecuária como sua grande vocação. Querendo e pedindo para virar Centro Oeste e abandonar a Amazônia.


Embora o Estado seja caracterizado por seu bioma amazônico, de floresta ombrófila, há traços de “chaco boliviano”, pantanal e cerrado. Este “caldo” somado a expansão da antropização, a técnicas e tecnologias que permitiram uma adaptação surpreendente a produção agropecuária. Chegando aos anos 2020 com o maior rebanho bovino livre de aftosa e sem vacinação do país. Maior produtor de peixe nativo em cativeiro (tambaqui), forte na exportação de grãos e carnes, tanto quanto na agricultura familiar, que representa mais 85% de suas mais de 143 mil propriedades rurais. Talvez o segundo melhor modelo de reforma agrária no país.


Esta simples e rápida caracterização traz ainda conflitos agrários e mortes, entre invasões em suas unidades de conservação ou áreas devolutas, privadas ou outros. Há ainda grande inconsistência entre seu zoneamento socioeconômico e ecológico e o uso e ocupação do solo, tanto quanto sua regularização fundiária precária. Há muitas transgressões legais passíveis de reparação. É voz corrente em Rondônia que, para mais que dobrar a produção agrícola do Estado, não é necessário derrubar um único “pau”, apenas usar a recuperação das áreas degradadas com espécies produtivas.


Assim, entendo que através de sua autarquia de pesquisa científica a FAPERO é possível jogar luz e conhecimento que nos permita produzir efetivamente de maneira sustentável.

Fundada a pouco mais de dez anos, com regulamentação, decretos, instalação e primeiro orçamento que culminaram no ano de 2013, a Fundação de Amparo a Pesquisa de Rondônia é a responsável pela política pública de pesquisas científicas, básicas e aplicadas, pós-graduação e fomento a inovação e tecnologia, resumidamente.


Integrante do sistema nacional, conhecido como CONFAP, Conselho Nacional das FAP’s, soma-se ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, à FINEP, CNPq, CAPES e diversas outras entidades públicas e privadas no esforço de modernização da economia Brasileira, através da Ciência, Tecnologia e Inovação – CT&I.


A política pública de CT&I em Rondônia tem na sua Fundação de Amparo (FAPERO) a principal executora. E daí, entenda-se, Pesquisa Científica, básica ou aplicada, seu amparo, articulação e difusão. A FAPERO é também, braço da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, a quem compete a política pública de Tecnologia e Inovação, na implementação destas. Seja através de fomento a bolsistas, articulação, e ou difusão a programas de empreendedorismo inovador.


Na verdade, do tripé básico de suas responsabilidades, Pesquisa Científica, Tecnologia e Inovação, faltou citar a formação de Recursos Humanos em pós-graduação.


Com 10 anos de sua fundação, conforme a lei 2.528 de 25 de julho de 2011; 9 anos de sua instalação e 8 anos de operação orçamentária efetiva, a FAPERO é uma autarquia nova, em um Estado novo. Rondônia sendo ainda carente de estruturas básicas para melhor qualidade de vida de seu povo, pode ter na pesquisa científica a redenção de fazer desse Estado Amazônico, um grande produtor comparável aos Estados do Centro-Oeste, capaz de produzir competitivamente, de alta produtividade e de maneira sustentável.


Concluo aqui, trazendo a informação de que no próximo mês de junho, será lançado pelo Conselho Nacional das Fundações de Amparo a Pesquisa a Iniciativa Amazônia +10, que terá um fundo para significativos investimentos em pesquisas e desenvolvimento humano nos Estados Amazônicos. Trago esta informação não somente por si, mas no bojo do entendimento nacional de que é preciso desenvolver a região de maneira efetivamente sustentável, para o bem das futuras gerações e das atuais negociações internacionais do país.


*Paulo Renato Haddad - Presidente da FAPERO

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