A IMPORTÂNCIA DE SISTEMAS DE PRODUÇÃO AGROPECUÁRIOS INTEGRADOS E RESILIENTES ÀS MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Atualizado: 23 de ago.



Rafael Zavala, Representante da FAO no Brasil


À medida que a população mundial aumenta, a necessidade de uma agricultura próspera, inclusiva, sustentável, com baixas emissões e resiliente às mudanças climáticas se torna necessária, e mais do que isso, urgente. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que o número de habitantes no planeta terra deve aumentar para quase 10 bilhões até 2050, e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estima que para atender a crescente demanda por alimentos, a produção terá que aumentar mais de 60% em todo o planeta.


Essas previsões, quando analisadas à luz do atual contexto de aumento da insegurança alimentar, do preço dos alimentos, e dos problemas decorrentes de práticas agrícolas não-sustentáveis, nos mostram que precisamos mudar a maneira como administramos as terras e a nossa produção de bens agrícolas e arbóreos. O uso das funções ecológicas de árvores, animais e plantações tem o potencial de aumentar a produção de alimentos e, ao mesmo tempo, reduzir a pegada –hídrica e de carbono– da agricultura no meio ambiente.


Globalmente, segundo a FAO (2021), os sistemas agroalimentares são responsáveis ​​por mais de um terço de todas as emissões de gases de efeito estufa, no entanto são extremamente vulneráveis ​​às mudanças climáticas. Abrangendo desde mudanças no uso da terra e produção agrícola até o processo de embalagem e gestão de resíduos, as emissões de sistemas alimentares foram estimadas em 18 bilhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente em 2015. Já dados do último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, 2022) mostram que embora a produtividade agrícola geral tenha aumentado, as mudanças climáticas diminuíram esse crescimento nos últimos 50 anos em todo o mundo, gerando impactos negativos em algumas regiões.


A degradação do ecossistema e a perda de biodiversidade também aumentaram a um ritmo alarmante nos últimos anos. A FAO estima que um terço dos solos globais já está degradado, e que a erosão do solo pode levar a uma perda de 10% na produção agrícola até 2050. Além disso, o relatório O Estado da Terra e dos Recursos Hídricos para a Alimentação e a Agricultura (SOLAW) 2021 da FAO, alertou que nossos sistemas agrícolas –a complexa rede interconectada de solo, terra e água– estão em “ponto de ruptura”.


O ritmo alarmante das perdas de biodiversidade terá consequências devastadoras para a humanidade se não for controlado, e a adaptação para uma agricultura com baixas emissões e resiliente às mudanças climáticas é mais do que possível. Não podemos continuar pensando que conservar, sustentar e reduzir emissões são restrições que afetam o desenvolvimento produtivo. Inovações, bem como políticas e financiamento são medidas importantes para conservar a biodiversidade e reduzir a pressão sobre os recursos naturais.


Em setembro de 2021, a Cúpula de Sistemas Alimentares da ONU ofereceu uma oportunidade única aos países para revisar, melhorar e fortalecer seus sistemas agroalimentares com vistas a alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Na ocasião, o Brasil apresentou sua rota de ações prioritárias e medidas a serem realizadas até 2030 para um sistema agroalimentar mais produtivo, inclusivo, resiliente e sustentável no contexto da Agenda 2030. Entre os pontos destacados pela então Ministra Tereza Cristina, estavam o aumento da produtividade no campo com redução da pressão pela incorporação de novas áreas, além da adesão à coalizão de pecuária sustentável, e do lançamento da coalização sobre crescimento sustentável da produtividade, que buscava ampliar a eficiência do uso dos recursos produtivos e a disponibilidade de alimentos a preços acessíveis.


Em março de 2022, o Brasil ainda participou da 37ª Conferência Regional da FAO, que estabeleceu as prioridades regionais que orientarão o trabalho da Organização nos países da região durante os próximos dois anos. Entre elas, a construção de sistemas agroalimentares sustentáveis ​​para garantir alimentações saudáveis; sociedades rurais prósperas e inclusivas; e agricultura resiliente e adaptada às mudanças climáticas.


O Inquérito VigiSAN, conduzido pela Rede PenSSAN no final de 2020, mostrou a gravidade do aumento acentuado da insegurança alimentar em todas as grandes regiões, principalmente entre 2018 e 2020. A experiência da fome afetou 19 milhões de brasileiros no final de 2020. Essa proporção é mais que dobro observado em 2009, e representa uma volta ao nível observado em 2004. Um retrocesso de 15 anos em apenas cinco. Por outro lado, segundo a FAO, o Brasil é o quarto maior produtor de grãos e o maior exportador de carne bovina do mundo, e as exportações brasileiras alcançaram cerca de US$ 419 bilhões, entre 2000 e 2020. Estes dados nos remetem à importância de trabalhar com governos e atores-chave, para apoiar a integração de sistemas agroalimentares mais sustentáveis em suas três dimensões: social, econômica e ambiental.


Do ponto de vista ambiental, o fortalecimento de um sistema agroalimentar que ajude a mitigar os impactos da agricultura às mudanças climáticas, além de aumentar a disponibilidade de água, entre outros serviços. Em termos econômicos, o aumento e diversificação da renda de produtores e consumidores e para que tenham acesso a alimentos mais nutritivos. Quanto aos benefícios sociais, o empoderamento das mulheres rurais, a validação do conhecimento tradicional e a melhora nos meios de subsistência rurais.


Parafraseando as palavras do Diretor Regional da FAO para a América Latina e o Caribe, Julio Berdegué, o que mais importa, principalmente para o setor agrícola, é a adaptação às mudanças climáticas. O desmatamento está amplamente associado à expansão agrícola, as florestas são queimadas ou derrubadas para plantação ou produção de gado, e não há mais espaço para isso frente ao contexto atual e os desafios que ainda virão. A agricultura e pecuária não apenas no Brasil, mas tem toda a América Latina e o Caribe, tem que ser desmatamento zero.


A prática de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) no Brasil é uma experiência positiva na promoção da recuperação de áreas de pastagens degradadas e de aumento da biodiversidade de controle da erosão do solo, pois agrega diferentes sistemas produtivos com a aplicação de técnicas e sistemas de plantio que otimizam e intensificam seu uso. Ao fornecer sombra e um ambiente fresco para plantações ou animais, é possível manter ou aumentar os rendimentos diante das mudanças climáticas, fortalecendo a resiliência. Além disso, uma melhor gestão dos nutrientes do solo reduz a necessidade de recorrer a fertilizantes, outra fonte significativa de emissões de gases de efeito estufa.


Cabe destacar também o importante papel da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) no desenvolvimento do trabalho de pesquisa e transferência de tecnologia de ILPF, onde destaca que a área total de sistemas integrados de produção no Brasil passou de 1,87 milhões de hectares em 2005 para 17 milhões em 2020. Diante dos seus compromissos globais, é certo que o país ainda ampliará seu papel como importante produtor agrícola e como motor de desenvolvimento de uma agricultura sustentável na região.


Olhando para o futuro, o contexto pós-pandemia é muito pertinente para avaliar as experiências já realizadas, detectar o que funcionou bem e o que deve mudar. Neste sentido, ver o Brasil comprometido com a resolução de medidas que transformem os sistemas agroalimentares, buscando superar suas metas e compromissos para que o país alcance efetivamente uma agricultura sustentável e resiliente, se torna um grande objetivo para reconstruir melhor, promovendo o bem-estar da população, a redução da pobreza, e a reativação econômica. Se conseguirmos encontrar formas concretas de maximizar os benefícios da transformação dos sistemas agroalimentares, teremos o que a FAO chama de “os 4 melhores”, em seu marco estratégico: melhor produção, melhor nutrição, melhor ambiente e melhor qualidade de vida, sem deixar ninguém para trás.


Referências

EMBRAPA. Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. 2021. Brasil é o quarto maior produtor de grãos e o maior exportador de carne bovina do mundo, diz estudo. https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/62619259/brasil-e-o-quarto-maior-produtor-de-graos-e-o-maior-exportador-de-carne-bovina-do-mundo-diz-estudo

EMBRAPA. Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. 2021. Benefícios e Desafios na Adoção de Sistemas Integrados de Pecuária com Lavoura ou Floresta. https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/228368/1/Boletim-CiCarne-49-2021.pdf

FAO. Food and Agriculture Organization of the United Nations. Agroforestry. https://www.fao.org/forestry/agroforestry/en/

FAO. Food and Agriculture Organization of the United Nations. 2021. Food systems account for more than one third of global greenhouse gas emissions. https://www.fao.org/news/story/en/item/1379373/icode/

FAO. Food and Agriculture Organization of the United Nations. 2021. the State of the World’s Land and Water Resources for Food and Agriculture – Systems at breaking point. Synthesis report 2021. https://doi.org/10.4060/cb7654en

FAO. Food and Agriculture Organization of the United Nations. 2022. Os países da América Latina e do Caribe estabeleceram três prioridades regionais para a FAO. https://www.fao.org/brasil/noticias/detail-events/pt/c/1492407/

IPCC. Intergovernmental Panel on Climate Change. 2022. Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability. Summary for Policymakers. https://www.ipcc.ch/report/ar6/wg2/downloads/report/IPCC_AR6_WGII_SummaryForPolicymakers.pdf

MAPA. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. 2016. Integração Lavoura, Pecuária e Floresta – ILPF. https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/sustentabilidade/plano-abc/integracao-lavoura-pecuaria-e-floresta-ilpf

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