INCLUSÃO TECNOLÓGICA JÁ

Atualizado: 11 de mar.

Reinventando os mecanismos de Transferência de Conhecimento e Tecnologia para Produtores não tecnificados.









*Elcio Guimarães

*Otávio Maia


O Brasil é uma das maiores potências mundiais do agronegócio figurando entre os maiores produtores e exportadores de alimentos do Mundo. Atualmente, só pra dar um exemplo, somos o 4º maior produtor de grãos do planeta, responsável por aproximadamente 7,8% da produção mundial, atrás apenas de Estados Unidos, China e Índia. Esse destaque e relevância do agronegócio brasileiro já é reconhecido há um bom tempo por grande parte da população. Existe uma grande expectativa por um crescimento da produção agropecuária visando atender a uma demanda crescente da população mundial que deverá chegar a aproximadamente 10 bilhões de pessoas até 2050. Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) a produção mundial de alimentos precisará aumentar em aproximadamente 70%. Grande parte dessa expectativa se volta para o Brasil que possui uma grande extensão de terras “cultiváveis”, clima e disponibilidade de água que o favorecem para assumir o protagonismo junto a esse desafio.


Para que isso possa ser alcançado precisamos priorizar os produtores que não têm acesso à tecnologias e metodologias de produção avançadas, que são numericamente a maioria. Segundo dados do Censo Agropecuário de 2017, realizado pelo IBGE, existem 4,06 milhões de produtores rurais no país entre grandes, médios e principalmente pequenos produtores. Alguns dados deste levantamento nos chamam atenção e merecem destaque, dentre eles a queda do número de produtores, comparando com o levantamento anterior (em 2006 eram 4,86 milhões de produtores rurais) e o alto percentual de jovens (71%) que não participam das atividades agrícolas da família nos alertando para a preocupação com o tema da sucessão familiar. Outros dados preocupantes são a alta média de idade da população rural que está envelhecendo e conta com apenas 6,7% de pessoas com menos de 25 anos; a baixa escolaridade com cerca de 70% da população sem ensino fundamental e apenas 2% com nível superior; além da baixa renda haja vista um percentual de 82,6% da população rural terem renda inferior a 2 salários mínimos mensais.


Para mudar essa realidade precisamos, dentre outras medidas, investir na melhoria do acesso às novas tecnologias a esse grupo de produtores que o nosso querido ex Ministro da Agricultura, Allysson Paulinelli (que chamamos carinhosamente de Ministro da Paz) costuma classificar como produtores não tecnificados.

Três propostas principais se despontam como medidas com grande potencial de reverter esse quadro: o fortalecimento de uma rede nacional de ATER (Assistência Técnica e Extensão Rural); políticas públicas, incluindo investimentos no setor; e o avanço na adoção de ferramentas digitais e tecnológicas de apoio a esse grupo de agricultores rurais que precisam potencializar acesso à novas tecnologias.


Do ponto de vista do Fortalecimentos da ATER se faz necessário a criação de um movimento nacional agregador, a ser capitaneado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), que estimule e garanta a atuação cooperativa. O MAPA teria um papel de coordenação e orientação estratégica junto aos diversos prestadores de serviços agropecuários no país (Empresas Públicas, SENAR, entidades privadas, dentre outros). Com isso seria formada uma “rede colaborativa” que otimizaria as atividades e resultados em ATER.


Como segundo ponto, precisaríamos ter políticas públicas que desenhassem uma estratégia nacional de desenvolvimento do setor agropecuário, também é de suma importância o fomento ao desenvolvimento regional conforme as potencialidades, característica e vocações locais que permitirão desenvolver e fortalecer cadeias produtivas setoriais. Para tal, é fundamental que essas políticas publicas venham acompanhadas de estratégias de financiamento das atividades de ATER sendo desejável a criação de FUNDOS específicos com origem de recursos determinados para o financiamento destas estratégias. Por outro lado, é também necessário estimular a assistência técnica privada que, para uma parte dos produtores rurais, é o caminho mais adequado.


Já o investimento em ferramentas digitais e tecnológicas de apoio aos produtores rurais visa ampliar o acesso a ATER e facilitar a disseminação de tecnologias, uma vez que é praticamente impossível estar presente junto a todos os produtores rurais em todo o país. Só para se ter uma noção de grandeza, dados da Asbraer (Associação Brasileira de Entidades de Assistência Técnica e Extensão do Rural) indicam que atualmente há aproximadamente 15.000 (quinze mil) extensionistas no Brasil. Calculando o número de produtores rurais (4,06 milhões) divido pelo número de extensionistas teríamos uma média de mais de 270 produtores a serem atendidos por cada profissional, o que nos demonstra a tamanho deste desafio. Garantir a implementação do 5G é de suma importância, pois permitirá a ampliação e melhoria da conectividade no campo. Essa ampliação das ferramentas digitais junto ao trabalho da ATER no Brasil é uma ferramenta complementar ao imprescindível trabalho presencial destes profissionais, visando potencializar o seu alcance. As dinâmicas e estratégias de implementação de unidades demonstrativas e unidades de referência, assim como eventos coletivos, são outras medidas que ajudam a potencializar o trabalho da ATER devido ao seu caráter multiplicador. Os produtores rurais não tecnificados precisam contar também com a ampliação das políticas de crédito rural que auxiliam no desenvolvimento da produção rural no país e o acesso a tecnologias e ferramentas de produção.


Com a implementação dessas diretrizes acreditamos dar uma grande parcela de contribuição para o real desenvolvimento do setor agropecuário no país com foco no apoio aos produtores rurais não tecnificados que são grandes responsáveis por praticar uma agricultura de caráter familiar, importante geradora de renda e ocupação no campo, com um papel social de extrema relevância, além de serem representantes legítimos da prática ambiental sustentável, característica intrínseca a estes produtores rurais presente na sua cultura e suas técnicas de produção.


*Otávio Maia - Presidente EMATER Minas Gerais

*Elcio Guimarães Chefe-Geral Embrapa Arroz e Feijão






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