Numa era de crescente protecionismo e fragmentação do comércio, como ficam experiências como a de Cingapura?
- 13 de mar. de 2025
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Jorge Arbache
Foi interessante ouvir o discurso recente do ministro das Relações Exteriores de Cingapura, Vivian Balakrishnan, no Parlamento. O ministro fez um apanhado geral dos interesses do país nesta era de profundas transformações. Aqui uns brevíssimos comentários que me ocorreram enquanto eu ouvia o discurso.
Cingapura foi, sem dúvida, um dos maiores beneficiários da ordem liberal estabelecida pelos Estados Unidos a partir do final da Segunda Guerra Mundial, aproveitando-se imensamente do livre comércio, do império da lei e do multilateralismo. O país cresceu e se consolidou por meio do comércio e dos investimentos, mantendo-se distante dos grandes conflitos geopolíticos internacionais, compreendendo que essa era a melhor estratégia para os seus interesses. Neste sentido, nunca aceitou ter uma base militar americana em seu território.
Entretanto, com fim da pax americana, todas aquelas condições favoráveis podem estar terminando e é provável que o país enfrente desafios significativos num futuro não distante. O ministro se orgulha do progresso de Cingapura, apesar da falta de recursos naturais. No entanto, depender da importação de energia, alimentos e outros recursos fundamentais num mundo cada vez mais caótico e imprevisível representa uma vulnerabilidade extrema, que pode colocar um país de joelhos.
O ministro também destaca as imensas reservas internacionais de Cingapura como um poderoso escudo. Porém, num contexto de possível depreciação do dólar e de ameaças de reestruturação da dívida americana, tal como tem sido aventado pela Casa Branca — sendo Cingapura um dos maiores detentores de Treasuries —, essa visão mereceria ser reavaliada e relativizada.
Além disso, o mercado doméstico do país é muito pequeno para absorver a sua produção. Assim que a fragmentação do comércio global e o avanço do protecionismo poderiam representar um caminho desafiador para o país. Da mesma forma que Cingapura se beneficiou imensamente da globalização, também poderá ser uma das economias que mais perderão com o seu eventual enfraquecimento.
Nesse cenário, o país precisaria de aliados distanciados de disputas políticas e que pudessem oferecer condições e perspectivas econômicas positivas para o seu futuro. Com os vastos recursos de seus fundos soberanos, sua tecnologia em serviços e outras fortalezas, Cingapura poderia se beneficiar significativamente de investimentos em projetos internacionais que gerassem benefícios mútuos e com uma visão de longo prazo. O Brasil poderia ser um desses aliados. É algo que iria muito além do acordo Mercosul-Cingapura, que é outra estória, tem outros fins.
Ao que tudo indica, uma vez mais a realidade se impõe e nos relembra que é preciso reconhecer o óbvio: território, recursos e capital natural, população e mercado interno são, sim, fatores econômicos absolutamente fundamentais — "back to the basics".
A globalização tal como a conhecemos pode ter sido apenas um breve episódio na história contemporânea. E casos como o de Cingapura deveriam ser analisados sob uma perspectiva mais ampla.
Segue o discurso: https://youtu.be/xhY8pAKMn




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