PAULO HADDAD: “JÁ COMEÇARAM A SAIR DO PAÍS OS DÓLARES DA CRISE GERADA PELA IMAGEM AMBIENTAL”

Atualizado: 22 de set. de 2021



Entrevista exclusiva com Paulo Haddad, professor emérito da UFMG, ex-ministro do Planejamento, e da Fazenda, no Governo Itamar Franco e Conselheiro do Instituto Fórum do Futuro, na qual alerta para os riscos políticos, econômicos e estratégicos que o Brasil enfrenta se não demonstrar ampla responsabilidade no uso do seu capital natural. “Já começaram a sair do País os dólares da crise gerada pela imagem ambiental projetada internacionalmente”, afirma Haddad. Ele propõe usar a Ciência como Plataforma para reabilitar áreas degradadas e desmatadas da Amazônia a partir da criação de “clusters” sustentáveis na região, tendo como base a iniciativa privada.


Fórum do Futuro – A questão política da Amazônia não começaria pela redefinição do mapa ambiental real a partir dos seus diversos biomas?


P.Haddad – A origem do que chamamos Amazônia legal está muito ligada ao problema do incentivo fiscal. Quando foi criado o incentivo fiscal para a Amazônia – e naquela época era preciso definir qual era a Amazônia a ser beneficiada com os financiamentos do Basa. Houve então uma corrida dos governadores, com apoio do Presidente José Sarney, para expandir a área de benefício. Isso é uma coisa comum. Quando a Vale começou a operar em torno da ferrovia, o Fundo de Apoio reunia 42 municípios. Aí somaram-se municípios do Vale do Jequitinhonha, e aí chegamos a 110. Trata-se de uma mera estratégia política na disputa por incentivos. Então, se você raciocinar com a lógica da regionalização administrativa vamos observar que ali tem uma parcela importante de campos Cerrados. E, mesmo dentro do bioma Amazônia, teríamos três ou quatro outras regiões que mereceria diferenciar. Mas, eu não acho que seja o melhor caminho, vamos perder tempo, pois vamos esbarrar em interesses regionais muito fortes. Eu quero propor uma coisa diferente. Primeiro, as empresas têm que compreender o a dinâmica dos negócios no Século XXI.

Nos anos 70, o Milton Freedman (Escola de Chicago), falava o seguinte: o objetivo da empresa é lucro. Tudo o que for feito fora disso era chamado de socialismo. Isso foi de 70 a 90. O objetivo da empresa era maximizar o lucro, desconsiderando questões de impacto social e ecológico. Nos anos 90, Michael Porter, do Instituto de Estratégia e Competitividade de Harvard, criou o conceito de Triple Bottom Line, que quer dizer: a empresa tinha que se pautar três objetivos: eficiência econômica, sustentabilidade ambiental e equidade social. Nas ações da empresa, é preciso ver quem ganha, quem perde, como ela está tratando o meio ambiente, etc. Isso entrou na moda e, por exemplo, empresas como Fibra, Votorantin e Vale começaram a trabalhar em cima destes objetivos. Abriram departamentos de meio ambiente, departamento de relações com a comunidade, e assim por diante. Quando veio a crise de 2008, ficou claro que aquilo era um bem de luxo, aquele bem que você incorpora somente quando sua renda aumenta e se desfaz quando a renda cai. O meio ambiente passou a figurar nas empresas como bem de luxo. Eles faziam muita propaganda. O Bradesco por exemplo, fez o cálculo da quantidade de CO2 emitida por cada funcionário e plantavam uma árvore correspondente. Agora, onda do Triple Bottom Line vem de novo, principalmente dos países escandinavos da Europa. No Brasil, por exemplo, a Unilever de Igarassu, em Pernambuco, estabeleceu como meta elevar em cinco anos o nível do IDH a padrões canadenses. Investiu em educação, emprego, saúde e hoje a localidade tem o IDH do Canadá. Todas as empresas grandes partiram pra isso. Um caso clássico: a empresa de chocolates MM’s não compra cacau de países onde há crise hídrica na região de produção. A Home Depot não compra móveis que vierem de região de floresta tropical. Enfim, essa cobrança chegou no mercado financeiro. O mercado financeiro hoje não compra ações e nem papéis de empresas que têm problema de sustentabilidade ambiental. Acaba de sair do Brasil, um consórcio de 12 entre as maiores corretoras do mundo, 15 bilhões de dólares da bolsa e do financiamento de títulos públicos. E isto por causa da questão da Amazônia.

Se as empresas quiserem fazer algo a longo prazo, elas precisam incorporar essa visão do Século XXI. E como elas podem fazer isso? Por exemplo, o mercado mundial exige que a saúde do animal que ela compra obedeça a determinadas condições fitossanitárias. Não há alternativa a não ser oferecer o tratamento fitossanitário aos produtores que sozinhos não conseguirão atingir aqueles padrões. Quando o mercado pede uma mudança, ela deve acontecer. Nos anos 70, quando nós fomos exportar o Fusca pra Alemanha, foram feitas 200 alterações no produto brasileiro, desde parafusos, a chapas de aço e normas de segurança. As mudanças devem ser feitas de acordo com as exigências de mercado.

“Se as empresas não se convencerem que elas têm que tratar a questão ambiental com seus fornecedores, elas irão sair do mercado”

Mesmo que as empresas brasileiras não queiram fazer isso, os concorrentes internacionais vão tirá-las do mercado internacional. A WWF está fazendo uma proposta de modelo de agrofloresta e pecuária com carbono zero. Então, é desejável que as empresas façam um trabalho de reestruturação das propriedades. Coisa de custo baixo. Mas, teriam que, por exemplo, fazer acordos e trabalhar proteção de nascentes, plantio de florestas, etc. Isso traria respostas fabulosas para qualquer empresa.


Fórum do Futuro -Do ponto de vista político, quando a Amazônia Legal é tratada como bloco, qualquer coisa que é tocada em um bloco que é absolutamente administrativo vira uma mensagem de que está sendo usada área de floresta úmida. Como o senhor vê esse problema?


P.Haddad – Na cabeça da opinião pública nacional e internacional, a Amazônia é aquilo que o governo apresenta como Amazônia. Foi um erro cometido lá atrás. Nesse momento, como o governo está demorando a entregar uma solução para o problema, qualquer questão relativa à regionalização, o que é de fato Amazônia e quantos Biomas têm, colocaria em xeque a nossa posição. Vão falar: “lá vem mais uma desculpa”. Em termos de comunicação, morreríamos na praia. Eu acho que se fizessem um programa de apoio à produção sustentável na região da Amazônia, seria algo muito positivo. Em termos de comunicação, propor redesenhar o mapa dos Biomas é uma derrota antecipada.


Fórum do Futuro – O que é a ecologia integral e como esta pode ajudar no aumento da oferta de alimentos com impacto mínimo e no desenvolvimento sustentável na Amazônia?


P.Haddad – A ideia da ecologia integral vem crescendo desde 1992. Ela foi incorporada na encíclica “Laudato Si”, do Papa Francisco, explicitamente. E também nos objetivos do milênio da ONU. Explicando a ecologia integral, vamos pegar uma propriedade agrícola. Quando falamos sobre o capital dessa propriedade, falamos em máquinas, equipamentos, instalações, tratores, capital humano e capital natural. Quando a ONU fala sobre o capital do Brasil, fala sobre estradas, portos, fábricas, cidades, bacias hidrográficas, Mata Atlântica, etc. O recurso natural é incorporado nisso. Como exemplo, veja o caso dos 1800 municípios que eram da Mata Atlântica e que foram explorados de forma degradada – Pau-brasil, cana-de-açúcar, café, pecuária. Então, hoje só sobra 8% da mata original. O que aconteceu com esses municípios que destruíram o seu capital natural? São considerados área econômica muito deprimida, pois a produtividade dos recursos naturais se esgotou. Em 1960, entre Muriaé e Governador Valadares, tínhamos a Mata Atlântica praticamente intacta. Para cada hectare de terra, era possível manter de sete a oito cabeça. Hoje, só conseguimos 0,8% de pecuária por hectare. A produtividade desabou. Se a produtividade cai, acontece o empobrecimento. Os municípios dependem 60% de política social compensatória e as prefeituras dependem 80% de fundos repassados pelo governo federal. Essa sinergia entre crise ambiental e social é o objeto de enfoque da ecologia integral.

Os rios voadores da Amazônia são determinantes na formação do clima da região Sudeste. São Paulo e Minas são os maiores produtores de café. Um estudo feito pelo Carlos Nobre, pela Politécnica de São Paulo e pela FIPE, mostra que nós vamos perder condições de produzir café, em São Paulo, por causa de mudanças climáticas e que essa cultura deve deslocar-se para o Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. Essa interdependência entre ecologia e economia está em todos os lugares que você possa imaginar.


Fórum do Futuro -Qual a diferença e como podem ser recuperadas áreas desmatadas e degradadas?


P.Haddad –Tomando como exemplo uma região de campo da Amazônia que foi desmatada. Se nada for feito para recuperar a área ao longo do tempo, essa área é degradada. Por exemplo, eu participei de um projeto chamado Biovale. Fomos para a região degradada da Amazônia, áreas que foram desmatadas e não foram recuperadas, que nem sempre podem ser recuperadas. O que nós conseguimos em alguns municípios foi o seguinte: a Vale procurou a Embrapa, que buscou procurou identificar a vocação da região. Diante de uma área vocacionada para o plantio de Dendê, a Embrapa foi com a Vale até a Costa Rica e comprou 15 milhões de sementes de dendê e fez o plantio. Ali, fez uma fábrica. Da fábrica, saem três produtos: um para indústria farmacêutica, outro para indústria alimentícia e o outro que é o biodiesel. Se você tentasse plantar nessa área degradada sem uma avaliação científica prévia iria fracassar, infelizmente. Então, esse estudo técnico mostra uma solução para cada território. Os aliados nesse processo é são a Embrapa e as Universidades. Então, imagina um contrato intermediado pelo Fórum do Futuro entre uma empresa e essas fontes do conhecimento em torno de um modelo de reabilitação da área. O Vale do Rio Doce foi degradado e está em um processo de reabilitação. Hoje, temos um trabalho grande de consultorias nacionais e internacionais que é a recuperação de áreas degradadas. Eu vi na Alemanha regiões inteiras de carvão mineral sendo recuperadas e reurbanizadas.


Fórum do Futuro – O senhor havia mencionado 50 produtos que podem emular clusters. Pode falar mais sobre esses produtos?


P.Haddad – A gente subestima o potencial que existe na periferia do saber, do conhecimento intelectual. A pandemia teve três aspectos muito importantes. O primeiro foi mostrar a dimensão da pobreza no Brasil. As estatísticas estavam subestimando quem era pobre no Brasil. A segunda foi revelar a potência do agronegócio que manteve a resiliência, o abastecimento, as exportações e o dinamismo da cadeia produtiva. A terceira foi dar rosto dos nossos cientistas.

“Nós temos um padrão científico no Brasil que é internacionalmente um dos melhores na área de biotecnologia, área econômica, área de saneamento básico, área de climatologia…. Na Universidade Estadual de Manaus, um grupo de pesquisadores fez um levantamento de mais de 50 produtos que são comercialmente viáveis”

Temos que trabalhar essa ideia, reunindo na mesma página o conhecimento científico, mecanismos de financiamento e de apoio aos produtores. São projetos envolvendo fármacos, exploração do óleo do pau rosa para perfumaria, etc… O açaí, por exemplo, permite a extração de vários produtos.

Madeira sustentável, essências, substâncias químicas, produtos alimentícios, produtos ornamentais.: é uma lista grande. E ela mostra que é possível ter uma linha de produção sustentável na Amazônia. Pegando a Fiat como exemplo, ela cuida de 56 fornecedores, ela vê a tecnologia, as associações com o capital internacional, etc. Ela também vai lá na ponta treinar o revendedor para que ele saiba lidar com os clientes. Pegando a Sabia, Seara e Aurora, eles cuidam do produto até a comunicação social e cuidam também dos produtores, cuidam da tecnologia, assistência técnica, qualidade do produto, treinamento de mão-de-obra, ou seja, cuidam de toda a cadeia produtiva. No caso dos exportadores de carne, eles estão cuidando só do produto para frente e o mercado pressiona para que cuidem para trás também.


Fórum do Futuro – Nos Estados Unidos, o cenário atual favorece à eleição de Joe Biden. A impressão que temos é que um governo Biden pode isolar o Brasil pelo lado da questão ambiental de uma maneira muito drástica. Como o senhor vê isso?


P.Haddad – Eu acho que lá fora a questão do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável viraram de política de primeira ordem. Eles estão pressionando a opinião pública no sentido de discriminar o Brasil. Eu acho que se a gente não fizer uma coisa séria, pra valer, vamos acabar exportando para países menos exigentes. Eu estive em Moçambique e conversei com o chefe de segurança da Vale que também foi coronel da Frente de Libertação de Moçambique. Ele chegou para mim e disse: “Ministro, a China está construindo uma Vale na África. Em um país é cobre, noutro ouro, noutro ferro. Eles vão tirar a Vale do mercado, eles acham que a Vale explora muito o monopólio que ela tem de minério de qualidade”. Então, não é simples, daqui a pouco eles vão querer importar da África, de Senegal, de Gana e nós vamos ficar na margem.

“O pessoal precisa levar um susto para atentar para a importância da questão ambiental”

Eles precisam incorporar o serviço de reestruturação produtiva dos fornecedores para jogar isso na imagem internacional. Por isso que eu acho que seria interessante intermediar empresas, Embrapa, Universidades e WWF, pois são eles que estão dando selos para grandes empresas internacionais.


Fórum do Futuro -O mundo tropical teria o direito de fazer parte das cadeias e contribuir com munição para a redução dos fluxos migratórios. Como o senhor avalia essa tese?


P. Haddad –Antes você criava oportunidades de emprego para reter a mão de obra. Nós não temos mais muito fluxo do Nordeste para o Centro-Sul porque as políticas compensatórias estão segurando o pessoal lá. Não fosse isso estaria todo mundo aqui embaixo procurando emprego e buscando sobreviver. Nesse caso, eu acho que aquela ideia da CAMPO de atuar junto com os BRICS lá na África é uma ideia sensacional. Na verdade, eu acho o seguinte, temos que pensar com o pé no chão, eu estou na Amazônia desde de 1984 quando eu fui morar em Rondônia para ajudar a construir a nova administração quando passou de território para Estado.

“Então o que eu penso é que persuasão moral não funciona porque você pode trabalhar durante 30 anos um modelo de sustentabilidade e de repente vem um Governo e provoca um grande retrocesso. O ideal é trabalhar capital versus capital, você tem que criar interesses”

Por exemplo, as áreas de turismo são preservadas porque tem interesse o interesse do business.

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