PERSPECTIVAS DE GERAÇÃO DE RENDA, EMPREGO E TRABALHO NA CADEIA PRODUTIVA DA BIOECONOMIA DO BRASIL

Atualizado: 22 de fev.




Dando sequência à publicação dos artigos a serem publicados no livro “AS SOLUÇÕES SUSTENTÁVEIS QUE VÊM DOS TRÓPICOS” apresentamos o texto do professor José Pastore, professor titular da USP e conselheiro do Fórum do Futuro sobre perspectivas de geração de renda, emprego e trabalho na cadeia produtiva da bioeconomia brasileira.



*José Pastore


Professor Titular da USP e Membro do Conselho Consultivo do Fórum do Futuro


O avanço em direção a uma economia sustentável tem sido acelerado e irreversível. Cada vez mais a sustentabilidade se torna objeto de acordos comerciais e tratados internacionais. É também critério para avaliação do desempenho das empresas na bolsa de Valores e outros ambientes. Trata-se de um caminho sem volta.


Mediante a combinação de conceitos das ciências da natureza com os conhecimentos da economia, a bioeconomia representa hoje um enorme potencial para se produzir com respeito à natureza, aos seres humanos e ao próprio planeta que precisa estar hígido para as novas gerações.


O Brasil tem um grande potencial para liderar a bioeconomia pelo fato de praticar uma agricultura dentro dos princípios da sustentabilidade. Afinal, o que mais interessa aos compradores e consumidores do mundo é ter certeza que os bens brasileiros são produzidos com respeito ao meio ambiente e aos seres humanos.


A aceleração do processo produtivo sustentável envolve a mobilização de vários tipos de tecnologias, o que por sua vez, têm exigências educacionais e profissionais de grande monta. Ao mesmo tempo, o uso dessas tecnologias tem impactos importantes no mercado de trabalho.


Os empregos da bioeconomia


Estimar os empregos gerados pela bioeconomia é tarefa difícil por se tratar de uma atividade que tem muitas ramificações – na agricultura, indústria, comércio e serviços dos mais variados. Ainda assim, OCDE informa haver cerca de 22 milhões de empregos no mundo ligados à intersecção dos setores indicados. Para a União Europeia, a OIT estima existir cerca de 15 milhões de empregos diretos e indiretos dedicados à proteção da biodiversidade e do meio ambiente. Dados da ONU relatam haver cerca de três milhões de “empregos verdes” voltados para a agricultura e a energia, podendo chegar a 7,1 milhões até 2030. Só para o manejo de florestas, a China tem criado cerca de um milhão de empregos anualmente.


Para o Brasil, em 2010, a OIT apontou a existência de 2,9 milhões de empregos diretos e indiretos ligados às atividades de controle e proteção do meio ambiente. Entre 2020-30, estima-se uma geração de mais dois milhões de novos postos de trabalho.


Ainda que as estimativas sejam precárias, os analistas do mercado de trabalho indicam que bioeconomia tem potencial para gerar renda e criar novos empregos nos setores de comercio e serviços das localidades onde opera. Isso já é verificado com a agropecuária. Nos últimos doze anos, enquanto o emprego direto na agropecuária caiu 1,5% ao ano, os serviços ligados àquela atividade no Brasil experimentaram um aumento de emprego formal da ordem de 2% ao ano. Isso mostra que o dinamismo da agropecuária moderna se dissemina para os outros setores do interior do Brasil. Basta dizer que entre 2000 e 2015, o PIB das cidades do interior cresceu 3,7% ao ano enquanto o das regiões metropolitanas aumentou 2,5% e o nacional, 3%.


A qualidade dos empregos


Os estudos disponíveis mostram que os empregos gerados pela bioeconomia serão de qualidade variada (muitos informais), mas, com uma tendência de aumentar o volume de trabalho decente e protegido pelas leis trabalhistas e previdenciárias.


Os que usam os conhecimentos da história, dizem, com razão, que as tecnologias destroem certos tipos de empregos e criam outros. Mas, nada é automático. Nem sempre o trabalhador desalojado pelas tecnologias em determinada atividade tem as habilidades requeridas pelas novas atividades. Descarbonizar o clima, por exemplo, gera novas oportunidades de emprego, mas, destrói muitos dos empregos de quem trabalha com as matérias carbonizantes.


É verdade que a bioeconomia cria vários tipos de novas atividades que podem ser utilizadas pelos que são deslocados de outras áreas, mas, outra vez, tudo depende da educação das pessoas. Os que passaram por uma educação de boa qualidade, conseguem se “repaginar” e trabalhar com as novas tecnologias. Os que não tiveram essa sorte, correm o risco de trabalhar em ocupações de menor prestigio e renda. A boa educação básica é essencial para a referida adaptação. Não há programa de requalificação que tenha êxito quando o aprendiz – menor ou adulto – carrega consigo graves falhas de educação básica.


Os estudos mais recentes mostram que a entrada acelerada de novas tecnologias nos processos produtivos tem forte relação com o aumento da desigualdade das últimas décadas. Ou seja, as tecnologias acabam gerando problemas quando destroem os empregos dos trabalhadores menos educados que não têm condições para se reciclarem para o novo mundo digital.


Os impactos diferenciados das tecnologias


Em 2003, David Autor, Frank Levy e Richard Murnane iniciaram uma longa trajetória de estudos para explicar o impacto da automação nas atividades humanas (tasks) que integram as diferentes ocupações. No início, eles acreditavam que as novas tecnologias substituiriam apenas os trabalhadores que realizam atividades rotineiras e repetitivas – manuais e não manuais. Com o passar dos anos, porém, eles notaram vários impactos das tecnologias nas ocupações não rotineiras e não manuais (analíticas) que envolvem atividades abstratas e interação interpessoal.


Com o surgimento da inteligência artificial, a partir dos anos 2000, viu-se o surgimento de máquinas e processos que observam, apreendem, corrigem seus próprios erros, reconhecem a voz humana, interpretam e traduzem textos falados ou escritos, sem falar nos que fazem diagnóstico com precisão igual ao superior ao dos médicos.


Hoje, várias atividades complexas, e que dependem de decisões racionais, vêm sendo substituídas por tecnologias e, nesse processo, muitos trabalhadores perdem a condição de executar as tarefas que executavam antes. Ao serem substituídos por uma máquina, sistema ou algoritmo, eles são forçados a se contentar com atividades menos complexas e de menor remuneração. É o que acontece, por exemplo, com contadores, professores e até engenheiros que dirigem UBER ou fazem entregas nos dias atuais.


Um processo desse tipo, é claro, aprofunda a desigualdade social e econômica. Isso deve ocorrer também com os trabalhadores da bioeconomia que vive um tempo de imensas transformações tecnológicas. As atividades que giram em torno de novas tecnologias exigem a um só tempo o domínio das próprias tecnologias e também as habilidades de empatia, julgamento, intuição e trabalho em grupo – que não são automatizáveis.


Devido ao seu caráter interdisciplinar, a bioeconomia gera uma grande variedade de novas atividades, profissões e ocupações de nível superior, como, por exemplo, de microbiologistas, engenheiros de vários tipos, biólogos, geneticistas, zootecnistas, administradores de florestas, comunicadores, professores, contadores, atuários, financistas, advogados especializados em regulação e propriedade intelectual, pessoal de logística, profissionais de marketing e vendas, controlador de qualidade, etc. Ao lado disso, há um aumento da demanda por operadores de vários tipos nos campos da agricultura, energia, indústria e meio ambiente, sejam eles de nível médio ou inferior.


Além de provocar a demanda por novas habilidades, a bioeconomia provoca a migração de profissionais e empregos do meio rural para o urbano e vice versa. No caso do Brasil, o aproveitamento das novas oportunidades de trabalho encontrará a barreira de um ensino fundamental e médio de má qualidade, na maioria dos casos. Esse é um desafio crônico da nossa realidade que precisa ser enfrentado.


Estamos diante de um problema muito conhecido e pouco resolvido: a baixa qualidade do ensino brasileiro que aqui está como obstáculo para o aproveitamento das novas oportunidades de trabalho trazidas pela bioeconomia.


Integração entre escolas, empresas e governos


Há 30 anos, a revolução digital era vista como uma grande promessa de crescimento econômico com inclusão social em que as novas oportunidades de trabalho dariam às pessoas um acesso crescente a uma boa qualidade de vida. Visualizava-se uma estrutura social mais porosa de modo a permitir amplos avanços na mobilidade social ascendente dentro de uma sociedade mais justa e menos desigual. A realidade dos dias atuais mostra que, no mercado de trabalho, a revolução digital resolve muitos problemas e cria outros. Mas, seria um erro grave demonizar as tecnologias. Isso traria um atraso insuperável para o Brasil. Diante dessa realidade, só nos resta investir mais e melhor no sistema de ensino fundamental e médio e envolver as empresas em qualificação e requalificação continuadas.


Ainda que necessárias e até imprescindíveis, as escolas, sozinhas, não conseguem entregar o tipo de educação que pode salvar os trabalhadores do desemprego, da informalidade e de uma queda na estrutura social. As empresas sozinhas também não tem condição de enfrentar esse desafio. E muito menos o governo que, por natureza, está longe das demandas do cotidiano em matéria de tecnologia. Trata-se de um desafio a ser enfrentado por uma boa parceria entre escolas, empresas e governo como fazem vários países que possuem o sistema dual de ensino e programas de requalificação permanentes.


Esse acoplamento entre escolas, empresas e governos para educar, qualificar e requalificar ao longo da vida profissional das pessoas é fácil de ser recomendado, mas muito difícil de ser praticado. Mas, isso não é impossível. Afinal, as próprias tecnologias modernas dispõem do ferramental que pode facilitar essa tarefa e atingir grandes massas de trabalhadores - o tempo todo - por meio de cursos e treinamentos on line.


Mas, uma coisa é certa. Os novos empregos da bioeconomia trarão muito progresso às pessoas e exigirão um esforço redobrado de escolas, empresas e governo para que os trabalhadores aproveitem as novas oportunidades e de trabalho, para, com isso, reduzir-se as grandes desigualdades. O World Economic Forum estima que o mundo precisará requalificar um bilhão de trabalhadores até 2030 e, para tanto, relata o esforço efetivo da parceria entre escolas, empresas e governos em vários países. O Brasil faz parte dessa necessidade.


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