UM NEGACIONISMO ECONÔMICO?

Atualizado: 26 de out. de 2021



Por Paulo Haddad


A expressão negacionismo, popularizada na França nos anos 1980, se viralizou durante o ciclo da pandemia do coronavirus, tornando-se muito observada ou compartilhada por um grande número de pessoas, especialmente em redes sociais ou aplicativos de compartilhamento de mensagens. Refere-se a informações e argumentos que se espalham relativamente rápido, de maneira a criar impactos semelhantes a um vírus epidêmico.

O negacionismo serve para explicar o comportamento de um grupo de pessoas que optam voluntariamente, ou sob a forte influência de alguma liderança política ou comunitária por não acreditar em uma informação, embora seja considerada como um consenso consolidado nos meios acadêmicos e científicos por ser empiricamente verificável. São citadas comumente como manifestações negacionistas da Ciência no século XXI: os movimentos antivacina; os movimentos terraplanistas; os negacionistas das mudanças climáticas; os negacionistas da pandemia; os negacionistas do Holocausto nazista; entre outros.

Há muitas razões que explicam a origem e a difusão dos negacionismos, entre as quais predominam as de natureza político-institucional. Para Barry Eichengreen, historiador econômico da Universidade de Stanford, governos populistas são historicamente a estufa ideal para o crescimento de movimentos negacionistas, pois: a. o populismo arregimenta a população contra a informação e o conhecimento científicos; b. as políticas públicas típicas de líderes populistas autoritários são danosas e destrutivas, e os seus impactos sobre as instituições são corrosivos; c. o populismo é divisivo e provoca, recorrentemente, desacordos e tensões entre interesses conflitantes na sociedade, tendo a capacidade de provocar o que há de pior entre os seus seguidores.

A Economia é uma ciência que se estrutura a partir de um conjunto de teorias e diretrizes gerais, o qual, entretanto, não se aplica indiferentemente em qualquer contexto histórico. Não há uma receita única que possa resolver os problemas socioeconômicos que se apresentam para os formuladores de políticas econômicas, sendo que podem ocorrer roteiros diferenciados para resolver o mesmo problema. Portanto, é muito difícil caracterizar se uma polícia econômica traz, em sua concepção, um embrião de negacionismo do crescimento econômico.

Entretanto, é possível destacar algumas controvérsias sobre a retomada do crescimento dentro do atual modelo de equilíbrio fiscal expansionista. A partir desse modelo, imagina-se que o ajuste é uma condição necessária e suficiente para restabelecer a confiança dos agentes econômicos e mobilizar as energias e as expectativas de consumidores e empreendedores numa trajetória de crescimento.

Entre as controvérsias, destacam-se: a. os impactos expansionistas das reformas político-institucionais poderão ocorrer eventualmente no médio e no longo prazo; b. a austeridade fiscal por si só coloca um profundo estresse no sistema político, desorganiza direitos sociais adquiridos e constitui um fator de instabilidades e de tensões na sociedade; c. no intervalo intermitente, tende a ocorrer a reprodução ampliada da crise social e da crise ambiental, o número crescente de incertezas que se espraiam na economia e um desalento sobre o futuro do desenvolvimento nacional.

Paulo R. Haddad é professor emérito da UFMG. Foi Ministro do Planejamento e da Fazenda no Governo Itamar Franco.

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