A ECONOMIA NATURAL DO CONHECIMENTO

Inteligência aplicada na produção sustentável de alimentos para o mercado nacional e global




*Marcio de Miranda Santos



A produção e o consumo de alimentos passam por transformações contínuas que impactam, fortemente, a natureza e o tamanho dos mercados, por conta de produtos inovadores que revolucionam o mundo dos alimentos. Em certa medida, esse processo não está sendo acompanhado por aqueles comprometidos com o futuro da existência humana no planeta, aí incluídos os principais atores na cadeia de valor de alimentos e matérias primas agrícolas, as empresas em particular. Inserir a visão de economia natural do conhecimento nos processos decisórios orientados por futuro parece ser o melhor caminho.


Sinais fracos das forças que influenciam os negócios, verificados no passado, constituem, hoje, fortes elementos transformadores da atuação dos atores que contribuem para a produção de alimentos e matérias primas e, indiretamente, para o bem-estar e paz social. As ações tomadas pelas companhias para diminuir o impacto ambiental das suas atividades; estimular ações de valorização das suas equipes de trabalho e das comunidades com as quais interagem; e promover o desenvolvimento econômico e social equilibrado, em prol da coletividade, são de alto conteúdo estratégico para os negócios presentes e futuros. As métricas de ESG (em português, Ambiental, Social e de Governança) já impactam modelos de negócios na busca da sustentabilidade dos processos produtivos e da preservação e ampliação competitiva de produtos e processos nos seus mercados.


Falar em mudanças climáticas virou lugar comum. Mas o que dizer das novas gerações que não aceitam passivamente as estratégias de produção atuais e que se engajam em modelos de consumo que não agridem a natureza e o bem-estar coletivo? Como seguir adiante no enfrentamento inteligente dos desafios, e, principalmente, das oportunidades, identificados a partir de tendências ou fatos novos inesperados - conflitos armados, por exemplo - que colocam em risco a oferta de alimentos a preços que limitam seu acesso a poucos? Como se valer da enorme vantagem comparativa que Brasil possui para ocupar, com estratégias próprias e baseadas no conhecimento científico, seus biomas ainda pouco explorados, de forma a não afrontar valores que são hoje compartilhados em escala planetária: proteção do meio ambiente, desenvolvimento social inclusivo e governança de resultados?


Nessa linha, “os aspectos ambientais, sociais e de governança impactarão o sucesso ou não de um negócio, o que engloba sua capacidade de acessar capital, definir riscos reputacionais, atrair talentos e ganhar competitividade. Por ser um assunto imprescindível, executivos e conselheiros vão demandar dados ESG de suas companhias para tomar decisões estratégicas. Tais informações precisam ter qualidade e para isso vão exigir arquitetura inteligente para a coleta de dados, gestão qualificada e sistemas auditáveis. O chamado ESG data intelligence será um dos temas mais críticos para a elevação da agenda no nível estratégico dos negócios. Em 2022 o tema estará definitivamente no topo da lista das lideranças” (Nelmara Arbex, líder de ESG da empresa de consultoria KPMG, em Folha de São Paulo de 20/01/2022).


O tratamento de questões estratégicas requer ação de design inclusiva, inteligente e colaborativa, que mobilize a criatividade e o pensamento diferenciado de profissionais atuando no Brasil e no exterior, engajados em missão de apelo planetário que une pontos que hoje estão separados. Pontes que precisam ser construídas entre os consumidores, os atores da cadeia de valor de alimentos e as instâncias que irão definir o futuro dos mercados por meio de exigências de boas práticas, padrões e regulação alinhados à proteção do meio ambiente e a procedimentos de gestão e governança compatíveis com o que se espera de uma sociedade moderna.


A sustentabilidade da produção de alimentos faz parte de um processo civilizatório resultante, ainda que em parte, de tendências fortes o suficiente para excluir atores importantes de suas cadeias produtivas globais, com impactos relevantes nas economias locais e regionais.


Essas questões exigem reflexão e ação. Mais importante, de sistemas de inteligência antecipatória com olhar na evolução das preferências do mercado consumidor. Algo inovador e portador de futuro precisa ser feito de forma coordenada pelas principais lideranças nos ambientes público e privado, para inverter, inteligentemente, tendência perversa aos interesses nacionais, sob pena de, novamente, nos valermos de exemplos e conquistas feitas por outras nações, europeias e asiáticas em sua maioria, China em particular.


Saber o que se quer transformar é o primeiro passo de qualquer estratégia orientada por missão. São muitas as possíveis missões de Estado em um país com as características do Brasil, mas nenhuma tem maior apelo e urgência do que a de enfrentar os desafios da produção de alimentos alinhada a valores ditados pela sociedade e pelos mercados consumidores do futuro, revertendo uma percepção global que aos poucos se consolidada: as matérias primas de grande volume produzidas no território nacional destroem a natureza e comprometem a saúde do planeta.


Importante que se compreenda que missões se desenvolvem por meio de interações sistêmicas e que, portanto, estão cercadas de incertezas (exigindo, eventualmente, correções de rotas), são facilitadas pelo acúmulo de conhecimento (típico da ação estratégica) e requerem esforços coletivos. O desenvolvimento que se espera alcançar a partir de uma missão mobilizadora precisa ser, ao mesmo tempo, guiado pela inovação, inclusivo e sustentável (Mazzucato e Penna, 2016 - disponível em https://www.cgee.org.br/documents/10195/1774546/The_Brazilian_Innovation_System-CGEE-MazzucatoandPenna2-Executive_Summary.pdf/aa334bc1-8c6c-446a-bdc0-26469b2a102a?version=1.3).


Estados inovadores, ou mesmo associações de empresas inovadoras e seus stakeholders, desenham e conduzem ações orientadas por missão que buscam integrar produção, distribuição e padrões de consumo. Mas muito pouco tem sido feito para alinhar os processos produtivos aos valores embutidos nos conceitos de ESG, muito distantes de estratégias de marketing comercial conhecidas hoje como green washing. Nem tudo o que se apresenta como eco-friendly passa por um processo sério de auditoria ou certificação.


Em uma economia natural do conhecimento, os pontos destacados abaixo desempenham um papel relevante para o atingimento de uma missão de Estado voltada para o aumento da sustentabilidade na produção de alimentos e matérias primas agrícolas, em particular no que se refere ao desenvolvimento de métricas auditáveis de ESG:


  1. A existência, criação e manutenção de infraestruturas de dados e informações sobre biodiversidade, passíveis de serem empregadas em processos de inteligência;

  2. Repositórios permanentes de recursos biológicos mantidos em condições ex situ ou em seus ambientes naturais ou tradicionais de ocorrência (in situ ou on farm)

  3. A geração intensiva de conhecimento orientado por missão, assim como a gestão inteligente da fantástica quantidade de conhecimento acumulado ao longo da história humana no planeta, especialmente por meio de ferramental de network analytics;

  4. Análises sofisticadas de contextos geopolíticos, marcos regulatórios internacionais dinâmicos, normas e padrões de acesso a mercados, aspectos demográficos e ecológicos que afetam a performance dos mercados e sua evolução no tempo;

  5. Mecanismos de diálogo e comunicação na sociedade, em particular entre os principais interessados nas mudanças nos padrões de produção e consumo e seus beneficiários;

  6. O monitoramento de tendências que orientam investimentos de longo prazo, com destaque para aquelas que dão sentido e direção para estratégias corporativas de ESG.


Nossas lideranças, precisam explorar a criatividade dos que atuam na pesquisa e desenvolvimento pré-competitivo, antes que situações crises agudas se transformem em crônicas. Portanto, antes que seja tarde demais.


Nesse sentido, percebe-se como urgente o preenchimento de espaço que debata e proponha a implantação de inovação institucional moderna, enxuta e percebida como de excelente relação custo benefício, que oriente a condução de missão portadora de futuro, eficiente e geradora de inteligência sistêmica de grande relevância estratégica para empresas que atuam em mercados de grande volume do agronegócio nacional.


Cabe às lideranças progressistas do setor agrícola, no setor privado em particular, se posicionarem diante desse processo de transformação em curso e alterarem, para melhor, o ambiente da inteligência promotora de um Estado nacional moderno e orientado para o futuro.


*Marcio de Miranda Santos - Doutor em Genética e Melhoramento de Plantas



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