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Não basta reformar, é preciso saber crescer

  • há 12 horas
  • 4 min de leitura

Valor Econômico     l       16 abril 2026

Jorge Arbache




O debate econômico brasileiro voltou a gravitar em torno de duas palavras que parecem suficientes para organizar uma agenda de futuro: ajuste e reformas. O impulso é compreensível diante de um quadro fiscal exigente, juros elevados e investimento ainda aquém do necessário. Mas a experiência brasileira recomenda cautela. O país já percorreu esse caminho. Nos anos 1990, estabilizou, abriu, privatizou e liberalizou, e, ainda assim, não entregou o crescimento sustentado que se esperava. A lição não é que reformas não funcionam. É que elas não funcionam isoladamente, nem de forma automática. Crescimento depende de algo mais difícil: coerência entre macroeconomia, estrutura produtiva, inserção internacional e coordenação institucional.


O ponto central do debate atual é que o Brasil de hoje enfrenta desafios semelhantes aos do passado, mas em um contexto estrutural completamente diferente. À época, tratava-se de desmontar uma economia fechada, inflacionária e pouco competitiva. Hoje, trata-se de reposicionar o país em um mundo que se reorganiza rapidamente sob a pressão da transição energética, da fragmentação geopolítica e da reconfiguração das cadeias globais de valor. Esse novo ambiente não é apenas mais incerto; ele também é mais estratégico. Países e empresas já não buscam apenas eficiência, mas também segurança energética, resiliência e acesso a ativos críticos. E é exatamente nesse ponto que o Brasil se destaca.


O país reúne um conjunto raro de vantagens comparativas que, no novo contexto global, passam a ser vantagens competitivas dinâmicas. Energia renovável abundante e relativamente barata, base agroindustrial sofisticada, biodiversidade única, disponibilidade de água, capacidade de produção de biocombustíveis, potencial em soluções baseadas na natureza e reservas relevantes de minerais críticos colocam o Brasil em posição privilegiada. O mundo precisará de alimentos mais sustentáveis, de combustíveis de baixo carbono, de créditos de carbono de alta integridade, de soluções baseadas na natureza para adaptação e mitigação, e de insumos minerais para viabilizar a transição energética, como lítio, cobre, níquel, grafita e terras raras. Poucos países conseguem articular esses elementos em escala. O Brasil pode.


Mas potencial não se converte em crescimento por inércia. A experiência dos anos 1990 é clara: ganhos de eficiência microeconômica não se traduzem automaticamente em dinamismo macroeconômico. Naquele período, a combinação de estabilização via câmbio valorizado, abertura rápida e ausência de coordenação macro-micro comprometeu a competitividade de setores tradicionais, ampliou a vulnerabilidade externa e limitou o investimento. A lição é que preços relativos importam, sequenciamento importa e coordenação importa. Hoje, o risco não é repetir exatamente os mesmos erros, mas sim ignorar essas lições sob novas circunstâncias.


A diferença fundamental é que, desta vez, o Brasil não parte de uma agenda defensiva, de correção de distorções, mas de uma agenda ofensiva de crescimento. Powershoring, nesse contexto, não é apenas um conceito, mas uma estratégia de inserção internacional. Trata-se de atrair e desenvolver cadeias produtivas intensivas em energia e recursos naturais em um ambiente de baixo carbono, aproveitando a abundância relativa desses fatores. Isso inclui desde aço verde e alumínio de baixo carbono até fertilizantes, química verde, combustíveis sustentáveis de aviação e transporte marítimo, hidrogênio e derivados, além de manufaturas eletrointensivas. A isso se somam as oportunidades associadas à bioeconomia, aos biocombustíveis e às soluções baseadas na natureza, que podem transformar ativos ambientais em fluxos de renda, investimento e exportações.

Essa é, potencialmente, a grande agenda econômica do país. Mas ela exige uma mudança de abordagem. Não se trata de escolher entre Estado e mercado, mas de entender o papel do Estado como coordenador e viabilizador de investimentos. Isso implica direcionar recursos públicos escassos para áreas com alto potencial de retorno econômico e inserção internacional, reduzindo riscos, destravando gargalos e catalisando o investimento privado. 

Infraestrutura energética e logística, transmissão, portos, financiamento de longo prazo, instrumentos de mitigação de risco, marcos regulatórios claros e previsíveis, licenciamento eficiente e formação de capital humano são elementos centrais dessa agenda. O Estado não substitui o mercado; ele o organiza.


O Brasil não pode esperar crescer para então ajustar as contas públicas, nem pode ajustar ignorando o crescimento. Nesse contexto, o ajuste fiscal continua sendo indispensável, mas sua natureza precisa ser compreendida corretamente. O Brasil não pode esperar crescer para então ajustar as contas públicas, nem pode ajustar ignorando o crescimento. A consolidação fiscal terá que ocorrer simultaneamente à construção de uma estratégia de expansão. Isso implica priorização. Em vez de dispersar recursos, será necessário concentrá-los em projetos e setores capazes de elevar o produto potencial, aumentar exportações, reduzir vulnerabilidades externas e atrair capital. Um ajuste fiscal crível, combinado com uma estratégia clara de crescimento, pode reduzir prêmios de risco, baixar o custo de capital e acelerar o investimento. Sem essa combinação, o ajuste tende a ser mais custoso e menos eficaz.


A coordenação entre macro e microeconomia, portanto, não é um detalhe técnico, mas o coração da estratégia. Política cambial, custo de capital, tributação, regulação e política industrial precisam apontar na mesma direção. Não se trata de repetir políticas do passado, mas de evitar suas inconsistências. A abertura comercial, por exemplo, deve ser pensada em função da inserção em cadeias globais estratégicas, e não como um fim em si mesmo. A política industrial deve ser seletiva e orientada por vantagens comparativas dinâmicas, e não por proteção difusa. E a política macroeconômica deve garantir estabilidade sem comprometer a competitividade.


O Brasil tem, hoje, uma oportunidade rara. O mundo está, simultaneamente, em busca de descarbonização, segurança energética, diversificação de cadeias produtivas e soluções baseadas na natureza. Poucos países podem oferecer tudo isso em escala. Mas oportunidades históricas não se materializam automaticamente. Elas exigem visão, coordenação e capacidade de execução. A lição do passado é clara: não basta reformar. A tarefa agora é mais exigente, e mais promissora. É saber usar as reformas, o ajuste fiscal e os ativos naturais do país para construir um novo modelo de crescimento, coerente com as transformações do mundo e com as vantagens do Brasil.




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