Relatório reúne resultados da agricultura regenerativa em lavouras comerciais do Cerrado
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Documento técnico-científico da fase 1 do Regenera Cerrado apresenta dados sobre biodiversidade, saúde do solo, controle biológico e desempenho econômico da soja e do milho

Equipe do projeto durante o 3º Workshop Regenera Cerrado. Foto: Instituto BioSistêmico
O relatório técnico-científico “Evidências Científicas para a Agricultura Regenerativa no Cerrado Brasileiro” reúne os principais resultados ambientais, agronômicos, econômicos e sociais obtidos na primeira fase do Projeto Regenera Cerrado. A publicação consolida pesquisas conduzidas em lavouras comerciais de soja e milho no sudoeste de Goiás e será disponibilizada gratuitamente para consulta e download.
As práticas associadas à agricultura regenerativa foram relacionadas aos melhores indicadores da atividade biológica do solo, maior presença de organismos que auxiliam no controle natural de pragas, menor população do fungo Fusarium oxysporum e resultados econômicos competitivos. Os estudos também identificaram desafios que exigem transição planejada, acompanhamento técnico e monitoramento por períodos mais longos.
A pesquisa acompanhou as safras 2022/2023 e 2023/2024 em 19 talhões de 12 fazendas localizadas em Rio Verde, Montividiu, Jataí e Mineiros. Ao todo, 36 pesquisadores de dez instituições participaram dos trabalhos, desenvolvidos em campo e laboratório com a colaboração direta dos produtores rurais.
Para Eliana Fontes, pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia e responsável pela coordenação técnico-científica do projeto, a publicação permite analisar os avanços e os limites observados nas propriedades.
“O relatório técnico-científico integra resultados de diferentes áreas do conhecimento e mostra como os sistemas agrícolas respondem às práticas regenerativas em condições reais de produção. Os dados apontam benefícios relacionados à biodiversidade, atividade biológica do solo, controle natural de pragas e competitividade econômica. Além disso, revelou desafios que precisam de acompanhamento, reforçando que a ciência aplicada cumpre seu papel quando identifica tanto os avanços quanto os pontos que ainda exigem pesquisa e aperfeiçoamento do manejo”, afirma.
Idealizado pelo Instituto Fórum do Futuro em 2022, o Regenera Cerrado foi criado com o intuito de aproximar pesquisa científica, experiência dos agricultores e produção comercial. A iniciativa propõe a disseminação de práticas regenerativas comprovadas cientificamente, de modo a contribuir para a construção de um modelo escalável de produção de soja e milho.
Na primeira fase, o projeto teve financiamento da Cargill, gestão do Instituto BioSistêmico (IBS) e coordenação técnico-científica da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia. Os estudos abrangeram biodiversidade, polinização, controle biológico, doenças das plantas, saúde e estrutura do solo, infiltração de água, carbono, bioinsumos e desempenho econômico.
Transição ocorre em diferentes graus
Um dos principais desafios da pesquisa foi a constatação de que as fazendas e talhões de estudo do projeto não se dividiam de maneira rígida entre dois modelos. Os talhões inicialmente classificados pelos produtores como regenerativos ou convencionais adotavam, em proporções diferentes, práticas relacionadas aos dois sistemas.
As áreas denominadas regenerativas apresentaram, em média, cerca de 70% de adesão às práticas avaliadas, enquanto as convencionais ficaram próximas de 37%. Entre os critérios analisados estavam a redução do revolvimento do solo, a manutenção da cobertura vegetal, a diversificação de culturas, o uso de bioinsumos e a menor dependência de produtos químicos sintéticos.
“O conteúdo ajuda a retirar o debate do campo das declarações genéricas. Ao acompanhar propriedades comerciais e relacionar indicadores ambientais aos custos e à produtividade, o projeto oferece referências para que cada agricultor avalie a transição a partir da realidade da fazenda, sem fórmulas prontas”, afirma Priscila Terrazzan, diretora do Instituto BioSistêmico.

Lavoura de soja regenerativa da Fazenda Bom Jardim Lagoano. Foto: Adriano Cruvinel
Biodiversidade auxilia o controle de pragas
Nas áreas com maior adoção de práticas regenerativas, o uso de bioinsumos esteve associado à maior presença de predadores, parasitoides e microrganismos que participam do controle natural de pragas. A mortalidade de lagartas provocada por fungos e parasitoides chegou a 36,4% em algumas áreas.
O uso mais intenso de inseticidas e fungicidas com maior potencial de periculosidade ambiental, por outro lado, foi relacionado à redução da abundância de inimigos naturais.
As pesquisas identificaram mais de 50 táxons de abelhas em áreas de soja, das quais, cerca de 89% são de espécies nativas. A proximidade de fragmentos de vegetação natural favoreceu a abundância e a variedade desses polinizadores.
Embora a reprodução da soja ocorra predominantemente por autofecundação, a visitação de abelhas pode influenciar o desempenho da cultura. Pontos próximos à vegetação nativa registraram aumento de até 7% na massa das sementes, em comparação com locais mais distantes. Os resultados são preliminares, mas indicam que a conservação da biodiversidade pode contribuir para a eficiência produtiva das lavouras.
Outra consequência positiva foi a redução de 44,2% na população de Fusarium oxysporum (fungo de solo associado a doenças radiculares nas plantas) nos 15 talhões monitorados. A média passou de 5.089 unidades formadoras de colônia por grama de solo no manejo convencional para 2.840 no regenerativo.
As doenças foliares apresentaram comportamento diferente. Algumas áreas com maior adoção de práticas regenerativas registraram maior severidade de enfermidades, possivelmente devido à retirada rápida de fungicidas químicos antes da consolidação de alternativas biológicas adequadas. O resultado reforça a necessidade de substituir insumos de maneira gradual e acompanhada tecnicamente.
Resultado econômico varia entre culturas
A análise econômica considerou produtividade, custos por hectare e por saca e lucro obtido nos cultivos de soja e milho. No consolidado das duas safras, o manejo regenerativo alcançou lucro de R$ 4.786,78 por hectare, frente a R$ 4.666,39 por hectare no convencional.
A diferença foi moderada, mas indica que a adoção das práticas não comprometeu a competitividade das propriedades nas condições analisadas. Os índices variaram de acordo com a cultura, clima, histórico de manejo e estágio de transição.
Na soja, os talhões convencionais registraram produtividade e margem ligeiramente superiores durante o período. No milho safrinha, o método regenerativo apresentou maior lucro nos dois anos analisados. Em 2024, a produtividade chegou a 151,34 sacas por hectare no manejo regenerativo, diante de 142,40 sacas no convencional. Já o lucro foi de R$ 2.719,05 e R$ 2.393,95 por hectare, respectivamente.
Relatório amplia o legado da primeira fase
A contribuição do Regenera Cerrado também alcançou a formação profissional e a transferência de conhecimento. A fase 1 apoiou a formação de 45 estudantes de graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado. Do mesmo modo, workshops, dias de campo e visitas técnicas reuniram 1.980 participantes, entre produtores, pesquisadores, consultores e estudantes.
Para Jorge Gustavo, analista de Sustentabilidade para América Latina do Negócio Agrícola da Cargill, a publicação amplia o acesso do setor produtivo ao conhecimento desenvolvido nas fazendas participantes. “A divulgação do relatório permite que produtores, técnicos, pesquisadores e instituições conheçam resultados gerados em condições reais de produção. Ao apoiar o Regenera Cerrado, a Cargill contribui para aproximar ciência e campo. Nosso objetivo é colaborar com a construção de referências que auxiliem o setor a avaliar práticas regenerativas com segurança técnica e viabilidade econômica”, conclui.
O relatório técnico-científico completo da fase 1 do Projeto Regenera Cerrado está disponível para consulta neste link.
Projeto Regenera Cerrado
Idealizado pelo Instituto Fórum do Futuro em 2022, o Regenera Cerrado tem como propósito disseminar práticas de agricultura regenerativa validadas cientificamente, oferecendo um modelo escalável de produção de soja e milho para o Brasil e o mundo.
Na segunda fase de trabalho, o projeto segue com o patrocínio da Cargill, conta com a coordenação técnico-científica da Embrapa e execução operacional do Instituto BioSistêmico (IBS), além da parceria de sete instituições nacionais e 8 fazendas localizadas na região de Rio Verde, no sudoeste goiano.
As instituições parceiras são: Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), Grupo Associado de Agricultura Sustentável (GAAS), Grupo Associado de Pesquisa do Sudoeste Goiano (GAPES), Instituto Federal Goiano, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade de Brasília (UnB).




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