Solos mais ricos em carbono podem ampliar retenção de água e estabilidade das lavouras
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Manejo correto na área de plantio pode reduzir em até 10% das emissões globais de gases de efeito estufa

José Siqueira, pesquisador e membro do comitê de governança do Regenera Cerrado. Foto: arquivo pessoal
Durante anos, o carbono no solo esteve associado diretamente aos debates ambientais e ao mercado de crédito de carbono. No entanto, pesquisadores e produtores rurais têm ampliado o debate sobre o tema ao observarem os impactos diretos na produtividade agrícola, retenção de água e resiliência das lavouras diante de eventos climáticos extremos.
Uma pesquisa desenvolvida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Solos) em parceria com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) indicou que os solos brasileiros armazenam cerca de 36 bilhões de toneladas de carbono orgânico, volume equivalente a aproximadamente 5% do estoque global.
Nesse contexto, as pesquisas voltadas à saúde do solo, agricultura de baixo carbono e manejo regenerativo ganharam força no país. A avaliação de especialistas é de que solos mais saudáveis tendem a registrar maior capacidade de armazenar água, ciclar nutrientes e reduzir perdas produtivas em cenários de estresse climático.
De acordo com José Siqueira, professor emérito da UFLA (Universidade Federal de Lavras – MG), pesquisador em Ciências do Solo e membro do comitê de governança do projeto Regenera Cerrado, o funcionamento dos sistemas agrícolas está diretamente ligado à dinâmica do carbono no solo e ao manejo adotado nas áreas cultivadas.
“O solo pode funcionar como fonte de gases de efeito estufa ou como dreno de carbono da atmosfera, ou seja, depende do manejo que se aplica. Quando aumentamos o teor de matéria orgânica, o sistema passa a reter mais carbono e isso influencia diretamente a qualidade, a produtividade e a sustentabilidade das lavouras”, explica.
Nesse sentido, a matéria orgânica é uma das principais variáveis do sol, além de ser responsável pela regulação das propriedades físicas, químicas e biológicas. Desse modo, práticas regenerativas adotadas no projeto Regenera Cerrado ganham relevância não apenas pelo aspecto ambiental, mas também pelo impacto agronômico e econômico nas propriedades rurais.
Matéria orgânica ajuda a reter água e aumentar a resiliência das lavouras
Entre os principais efeitos observados em solos com maior teor de carbono está a capacidade de retenção hídrica. Conforme explica José Siqueira, a matéria orgânica atua diretamente no armazenamento de água no solo e ajuda as culturas a enfrentarem períodos de seca e altas temperaturas.
“Para cada 1% de aumento no teor de matéria orgânica, o solo pode armazenar até 150 mil litros de água por hectare. Isso tem impacto direto sobre a resiliência das lavouras, porque regula o estado hídrico das plantas e reduz os efeitos da falta de chuva e do calor excessivo”, afirma.
O pesquisador reforça que práticas como plantio direto, manutenção da palhada, rotação de culturas, uso de plantas de cobertura e redução do revolvimento do solo contribuem para diminuir a degradação da matéria orgânica e aumentar o acúmulo de carbono nas áreas agrícolas.

Sistema de plantio direto em lavoura de soja regenerativa. Foto: Regenera Cerrado
No entendimento de Jorge Gustavo, Analista de Sustentabilidade do Negócio Agrícola da Cargill, os desafios climáticos têm reforçado a importância de práticas agrícolas capazes de aumentar a resiliência produtiva no campo. “Nesse contexto, iniciativas voltadas à saúde do solo e ao fortalecimento da matéria orgânica ganham relevância e a agricultura regenerativa representa um caminho importante para conciliar produtividade, sustentabilidade e adaptação climática no longo prazo”.
Integração entre ciência e campo fortalece agricultura regenerativa
A diretora do Instituto BioSistêmico (IBS), Priscila Terrazzan, acredita que a integração entre pesquisa, produtores e instituições parceiras (verificada no Regenera Cerrado) é fundamental para ampliar sistemas agrícolas mais resilientes, produtivos e alinhados à conservação dos recursos naturais.
“Iniciativas desenvolvidas diretamente em áreas agrícolas comerciais têm papel estratégico para aproximar ciência e realidade do campo. No Regenera Cerrado, buscamos gerar conhecimento aplicado sobre práticas regenerativas em condições reais de produção, considerando os desafios dos solos tropicais e as demandas dos produtores rurais”.
O professor José Siqueira reforça que o desafio da agricultura tropical passa pela capacidade de construir sistemas produtivos mais equilibrados biologicamente e com aptidão de manter produtividade sem ampliar processos de degradação do solo.
“O teor de matéria orgânica é considerado o alicerce da produtividade agrícola. Solos com baixos níveis de matéria orgânica normalmente são menos produtivos e mais suscetíveis às variações climáticas e outros eventos ambientais que impactam as lavouras. Já solos com maiores teores apresentam melhor equilíbrio biológico e físico, favorecendo o desenvolvimento das culturas e sistemas produtivos mais estáveis”, conclui.
Projeto Regenera Cerrado
Idealizado pelo Instituto Fórum do Futuro em 2022, o Regenera Cerrado tem como propósito disseminar práticas de agricultura regenerativa validadas cientificamente, oferecendo um modelo escalável de produção de soja e milho para o Brasil e o mundo.
Na segunda fase de trabalho, o projeto segue com o patrocínio da Cargill, conta com a coordenação técnico-científica da Embrapa e execução operacional do Instituto BioSistêmico (IBS), além da parceria de sete instituições nacionais e 8 fazendas localizadas na região de Rio Verde, no sudoeste goiano.
As instituições parceiras são: Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), Grupo Associado de Agricultura Sustentável (GAAS), Grupo Associado de Pesquisa do Sudoeste Goiano (GAPES), Instituto Federal Goiano, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade de Brasília (UnB).




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