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Cinco teses que podem fortalecer a abordagem de comunicação baseada em causas (Avocacy) para a Agricultura Tropical Regenerativa.

  • há 5 horas
  • 4 min de leitura


Prezados Colaboradores do Fórum do Futuro,

 

É com imenso prazer que lhes apresento uma síntese do trabalho de Alberto Gomes de Almeida. Advogado (OAB/DF), pós-graduado pela PUC de Campinas em DPO ( Data Protection Officer,  o encarregado de proteção de dados das empresas, o profissional responsável por garantir que a corporação cumpra a LGPD Lei Geral de Proteção de Dados). Mas, para as discussões temáticas da Rede de Construção dos Futuros Sustentáveis, Alberto traz uma abordagem nova, consistente e essencial por meio do seu trabalho como doutorando em Direito Digital.

Nessa primeira contribuição, ele analisa os desdobramentos possíveis sobre a realidade brasileira dos cenários potenciais levantados por um artigo de Jennifer M. Harris, publicado no dia 29 de junho no New York Time, “The Generational Force Hollowing Out the Economy”.

Jennifer Harris fez parte do grupo de assessores econômicos da Casa Branca do Presidente Joe Biden. Ela alerta para os efeitos práticos da drenagem do capital disponível para investimentos em IA em detrimento de outros setores críticos da economia.

Em anexo, o artigo de Jennifer traduzido. Saudamos as contribuições de Alberto, que vêm somar ao time de jovens que colocam suas ideias a serviço do processo de transformação mas num formato objetivo e prático.  Nesse grupo de colaboradores temos ainda a professora Talita Martins, da FGV, que nos ajuda a atualizar o conceito de bioeconomia, e o professor Carlos Antônio da Silva Junior, cientista na UNEMAT e criador da SpectraX, empresa capaz de realizar levantamentos da área plantada em tempo real.

Vejam as considerações de Alberto Almeida:

 “Jennifer Harris traz uma visão contracíclica e corajosa, especialmente vindo considerando-se ter feito parte do time de economistas da Casa Branca, que poderia estar alinhada entusiasmo oficial em torno da IA. Ela não nega o potencial transformador da tecnologia, mas chama a atenção para os custos de oportunidade e para a necessidade de gestão ativa desses processos, algo que os governos têm historicamente negligenciado, como mostram os exemplos das ferrovias e da bolha ponto-com.

Para o Brasil, esse alerta é duplamente relevante:

No plano macro, a corrida global por investimentos em IA significa que o capital estrangeiro para setores como o agro sustentável, que vocês chamam de "Terceiro Salto", será ainda mais escasso e disputado. Sem uma narrativa convincente e lastreada em evidências, o Brasil corre o risco de ficar para trás, não por falta de potencial, mas por falta de visibilidade e credibilidade em um mercado global cada vez mais seletivo.

No plano micro, a própria dinâmica interna de alocação de recursos no Brasil pode ser afetada: terras, água, energia e mão de obra qualificada podem ser desviadas para projetos de infraestrutura digital (data centers, cabos submarinos) em detrimento de iniciativas que regeneram o solo, preservam a Amazônia e produzem alimentos saudáveis.

Com base nisso, eu consigo identificar cinco teses que podem fortalecer a abordagem de comunicação baseada em causas para a Agricultura Tropical Regenerativa.

1. A ATR como "classe de ativo anticíclica"

Em um cenário de inflação e incerteza gerados pela concentração de capital em IA, investidores institucionais (fundos de pensão, family offices, gestoras de ESG) buscam ativos que ofereçam retornos reais e estáveis, com baixa correlação com as oscilações do mercado de tecnologia. A ATR, com seus ciclos produtivos previsíveis, sua ligação com a segurança alimentar e seu potencial de sequestro de carbono, pode ser posicionada como um porto seguro diante da "hollowing out"( esvaziamento) descrita por Harris. A comunicação baseada em causas deve evidenciar esse atributo, usando dados de monitoramento em tempo real como prova de resiliência.

2. A rastreabilidade como vantagem competitiva na "Economia da Intenção". 

Harris menciona que a IA pode aumentar a inflação ao encarecer chips e produtos eletrônicos. Nesse ambiente, consumidores e empresas buscam maximizar o valor do gasto. A ATR, acompanhada de rastreabilidade digital, permite que o comprador final saiba exatamente o que está pagando. Não paga apenas por um alimento, mas por um conjunto de benefícios ambientais e sociais. Essa transparência, que é o cerne da "Economia da Intenção", torna a ATR menos suscetível à concorrência predatória por preço, pois agrega uma camada de confiança que é escassa em mercados dominados por algoritmos opacos.

3. O risco geopolítico da concentração tecnológica e a oportunidade do Brasil. 

Harris aponta que a IA está desviando investimentos de manufatura e energia limpa. Para os EUA, isso é uma preocupação interna. Para o Brasil, é uma janela de oportunidade: o mundo precisará diversificar suas cadeias de suprimentos de alimentos, energia renovável e insumos críticos justamente porque a IA está canibalizando esses setores nos países centrais. A comunicação do Brasil deve enfatizar que a ATR não é um "produto commodity", mas uma solução sistêmica para os gargalos que a própria corrida da IA está criando, como a escassez de terras para produção de biocombustíveis ou a pressão sobre recursos hídricos.

4. A necessidade de uma "política industrial para o agro sustentável"

Harris sugere que governos atuem com política industrial para direcionar a IA para resultados desejáveis. Da mesma forma, o Brasil precisa de uma política explícita de fomento à ATR, com incentivos fiscais, linhas de crédito diferenciadas e regulações que premiem boas práticas. Essa política, no entanto, só será viável se houver uma narrativa convincente que mobilize a sociedade civil, o parlamento e o Judiciário, exatamente o que a estratégia de Advocacy do IFF se propõe a construir. A comunicação baseada em causas é o veículo para dar capilaridade a essa política e evitar que o agro sustentável seja "crowded out" (efeito de deslocamento, que descreve a situação em que o aumento dos gastos em uma áreas acaba "expulsando" ou reduzindo os investimentos em outras) por outras prioridades, como a própria infraestrutura digital ou o agronegócio convencional.

5. A urgência de engajar "digital borns" como construtores de pontes

 

Harris observa que as inovações da IA não se traduzem automaticamente em bem-estar; elas dependem das escolhas que fazemos sobre como usá-la. No caso do Brasil, as escolhas sobre o uso de terras, água e biomas serão feitas pelas próximas gerações, os "digital borns", que vocês mencionam na Comunicação Estratégica. Eles não são apenas consumidores de informação, mas cocriadores de narrativas. Engajá-los como porta-vozes e multiplicadores da ATR, usando linguagens e plataformas nativas (vídeos curtos, podcasts, jogos, realidade aumentada), pode acelerar a construção de um capital de confiança que neutralize a polarização e atraia a atenção de investidores globais, mesmo em um ambiente de escassez de recursos”.



 

 
 
 

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