Fungo que controla pragas naturalmente é identificado em áreas de soja e milho no Cerrado
- Marianna Ribeiro Oliveira
- há 1 dia
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Atualizado: há 3 horas
Diagnóstico conduzido por pesquisadores da Embrapa no Projeto Regenera Cerrado reforça o potencial do controle biológico na produção de grãos.

A identificação da existência do fungo Metarhizium rileyi em áreas acompanhadas pelo projeto Regenera Cerrado reforça a importância do monitoramento biológico como ferramenta estratégica da agricultura regenerativa. Detectado de forma disseminada e abundante em propriedades com plantio de cereais e oleaginosas, o microrganismo atua como agente natural de controle de pragas e indica maior equilíbrio ecológico nos sistemas produtivos do Cerrado brasileiro.
Conhecido por infectar lagartas do grupo dos lepidópteros noctuídeos, pragas recorrentes em culturas como soja e milho, o fungo provoca a morte dos insetos ainda na fase larval, reduzindo de forma natural os danos às lavouras. Sua presença contribui para a manutenção das populações de insetos em níveis compatíveis com a produtividade agrícola, sem a necessidade de intervenções químicas intensivas.
“Trata-se de um fungo entomopatogênico que atua diretamente sobre a população de lagartas. Em outras palavras, funciona como um agente de controle biológico nas lavouras, pois infecta e elimina os insetos, reduzindo de forma significativa os danos causados às culturas”, explica Rogerio Biaggioni Lopes, doutor em Entomologia e pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).
Embora o Metarhizium rileyi já tenha sido identificado em diferentes regiões do país, sua ocorrência nas fazendas parceiras do Regenera Cerrado chama atenção pelo contexto de manejo em que se desenvolve. Segundo o pesquisador, sistemas agrícolas conduzidos sob princípios regenerativos favorecem o estabelecimento e a atuação desses agentes naturais, especialmente em momentos de maior pressão de pragas.

“A presença do fungo não é inédita no Cerrado. O que chama atenção é o tipo de manejo adotado, que cria condições para que o agente de controle biológico se estabeleça e atue no campo justamente quando a população de pragas da soja e do milho aumenta”, observa Lopes.
Como o fungo Metarhizium rileyi é identificado?
O processo de monitoramento biológico envolve a coleta sistemática de lagartas vivas diretamente nas lavouras. Mesmo sem sintomas aparentes no momento da coleta, muitos insetos já estão infectados. O acompanhamento desses organismos em laboratório permite confirmar o agente causal da infecção e estimar a proporção de indivíduos contaminados.
“Em sistemas equilibrados, o aumento no número de lagartas tende a ser acompanhado pela ampliação da incidência da doença, desde que o fungo esteja presente. A ausência de dano econômico não significa ausência total da praga, mas sim na sua manutenção em níveis baixos e compatíveis com a produtividade”, ressalta o especialista da Embrapa.

Lopes acrescenta que o bom estabelecimento do fungo no campo depende da presença do hospedeiro e, sobretudo, de práticas de manejo que não interfiram negativamente em sua sobrevivência. Esse equilíbrio biológico, baseado na convivência com microrganismos naturalmente presentes no ambiente, é um dos pilares da agricultura regenerativa.
Diagnóstico comprova a eficácia do controle biológico
A adoção de técnicas de controle biológico já é amplamente referendada pela comunidade científica. No entanto, muitos produtores ainda desconhecem benefícios associados a esse modelo, como a melhoria da produtividade, maior resistência das lavouras a eventos climáticos extremos e a redução do uso de insumos industrializados.
Lavouras conduzidas sob manejo regenerativo tendem a apresentar menor vulnerabilidade em cenários de estresse climático quando comparadas a sistemas convencionais. Os ganhos produtivos observados têm ampliado o interesse não apenas de produtores rurais, mas também de empresas de diferentes segmentos, como corretoras de seguro agrícola, que reconhecem o potencial de redução de riscos associado a práticas sustentáveis.
Na avaliação da diretora de Responsabilidade Corporativa Latam da Cargill, Flávia Tayama, os resultados identificados no projeto Regenera Cerrado confirmam a agricultura regenerativa como um caminho viável para conciliar produtividade, sustentabilidade e resiliência no campo.
“A identificação de agentes naturais de controle biológico, como o Metarhizium rileyi, demonstra que sistemas bem manejados são capazes de restaurar o equilíbrio ecológico das lavouras. Esses resultados evidenciam que a adoção de práticas regenerativas se traduz em ganhos de eficiência produtiva, redução de riscos e na construção de sistemas agrícolas mais preparados para os desafios climáticos e econômicos do futuro”, argumenta.
Opinião de quem comprova as melhorias na prática
A Fazenda Boa Vista, localizada no município de Paraúna (GO), foi uma das áreas na qual foi identificada a ocorrência do fungo Metarhizium rileyi. O proprietário, Paulo Roberto Buffon, relata que, após a adoção dos manejos regenerativos, passou a observar com mais clareza a presença de estruturas fúngicas, micro e macrofauna e de diferentes agentes naturais de controle biológico nas lavouras.
“Esses organismos são tradicionalmente chamados de inimigos naturais das pragas, mas eu prefiro chamá-los de amigos naturais, porque estabelecem relações simbióticas com as plantas e ajudam a manter o equilíbrio do sistema produtivo”, explica.
Segundo Buffon, um dos principais reflexos desse processo é a redução do uso de defensivos químicos no controle de pragas e doenças. “Acompanhar o desenvolvimento dessas estruturas no solo e na lavoura reforça a certeza de que estamos no caminho certo. Tenho comprovado, na prática, que o manejo sustentável contribui para a produção de alimentos com melhor qualidade nutricional, ao mesmo tempo em que reduz ao máximo a dependência de insumos químicos. Isso nos permite construir um ambiente produtivo mais resiliente e favorável ao meio ambiente”, conclui.
Sobre o Projeto Regenera Cerrado
Idealizado pelo Instituto Fórum do Futuro em 2022, o Regenera Cerrado tem como propósito disseminar práticas de agricultura regenerativa validadas cientificamente, oferecendo um modelo escalável de produção de soja e milho para o Brasil e o mundo.
Na segunda fase de trabalho, o projeto segue com o patrocínio da Cargill, conta com a coordenação técnico-científica da Embrapa e execução operacional do Instituto BioSistêmico (IBS), além da parceria de sete instituições nacionais e 10 fazendas localizadas na região de Rio Verde, no sudoeste goiano.
As instituições parceiras são: Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), Grupo Associado de Agricultura Sustentável (GAAS), Grupo Associado de Pesquisa do Sudoeste Goiano (GAPES), Instituto Federal Goiano, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade de Brasília (UnB).




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