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Agricultura Regenerativa: Mulheres que regeneram o Cerrado

  • há 8 horas
  • 4 min de leitura

Produtora de Rio Verde (GO) lidera sucessão familiar e aposta na agricultura regenerativa com apoio da ciência e do projeto Regenera Cerrado


Renata Ferguson ao lado da filha, Tarcila Ferguson, e equipe do Regenera Cerrado
Renata Ferguson ao lado da filha, Tarcila Ferguson, e equipe do Regenera Cerrado

O agronegócio brasileiro tem se destacado pelo aumento de lideranças femininas na gestão e pesquisa agropecuária. Dados do Censo Agropecuário do IBGE mostram que mais de 946 mil estabelecimentos rurais no país já são dirigidos por mulheres, o equivalente a cerca de 18,6% das propriedades agropecuárias. Quando se consideram também os casos de codireção das atividades, esse número ultrapassa 1,7 milhão de mulheres em posições de gestão no campo.


Essa presença crescente reflete uma transformação silenciosa no agro brasileiro, marcada pela combinação entre gestão técnica, visão de longo prazo e sucessão familiar. No Cerrado, um dos principais polos agrícolas do país, histórias como a da produtora Renata Ferguson, de Rio Verde (GO), ilustram esse movimento.


Filha de agricultores e sucessora de uma trajetória iniciada pelos avós e consolidada por seu pai, John Lee Ferguson, Renata assumiu a gestão da fazenda da família e hoje conduz tanto as decisões administrativas quanto a produção agrícola.

“Eu sou uma sucessora e sigo um legado muito grande do meu pai. É um orgulho para mim. Agora tenho o desafio de trazer também meus filhos para dentro do negócio, para que a atividade continue no futuro”, afirma.


Formada como técnica agrícola, engenheira civil e engenheira de segurança do trabalho, Renata produz soja na primeira safra, seguida de milho e sorgo na propriedade rural. Para ela, o planejamento é parte central da atividade agrícola e também da construção de um legado ambiental.


“Nós, como mulheres, pensamos muito no futuro. Talvez eu não veja tudo o que posso fazer pelo solo lá na frente, mas precisamos deixar algo melhor para as próximas gerações, para os nossos filhos e netos”, afirma.


Essa visão levou a produtora a abrir as porteiras da fazenda Santa Cândida para novas tecnologias e práticas sustentáveis, incluindo a participação no projeto Regenera Cerrado, iniciativa que reúne produtores, pesquisadores e instituições para desenvolver e validar práticas de agricultura regenerativa no bioma Cerrado.


Renata revela que o interesse por modelos produtivos mais sustentáveis surgiu antes mesmo da experiência no campo. “Eu percebi que sempre tive essa preocupação com sustentabilidade. A minha casa em Rio Verde, por exemplo, foi construída com tijolos de solo-cimento, produzidos por mim. Depois, quando comecei a olhar para a fazenda, pensei: por que não cuidar também do solo com essa mesma visão?”.


Na prática, isso significa experimentar novas abordagens produtivas que conciliem produtividade e conservação. “Aqui na fazenda as porteiras estão sempre abertas para novas tecnologias. O que a gente testa aqui pode servir de exemplo para outras propriedades”, afirma.


Ciência e campo lado a lado


A participação de produtores como Renata é fundamental para a construção de evidências científicas sobre agricultura regenerativa no Cerrado. É nesse ponto que entra o trabalho da pesquisadora Flávia Fagundes de Paula, integrante da equipe do Regenera Cerrado


Flávia Fagundes durante atividade de campo do Regenera Cerrado
Flávia Fagundes durante atividade de campo do Regenera Cerrado

Filha de produtores rurais da Zona da Mata mineira e doutora em Entomologia Agrícola, Flávia atua há mais de uma década na integração entre ciência e prática no campo. Ela avalia que a agricultura regenerativa surgiu como resposta ao desafio de produzir alimentos em larga escala sem comprometer os recursos naturais.


“O Cerrado é um dos biomas mais biodiversos do planeta e também um dos principais polos agrícolas do mundo. A agricultura regenerativa busca justamente equilibrar essas duas dimensões, recuperando a saúde do solo, fortalecendo a biodiversidade e tornando o sistema produtivo mais resiliente”, explica.


Na prática, isso envolve estratégias como controle biológico de pragas, redução de insumos químicos sintéticos e adoção de práticas conservacionistas do solo. Outro aspecto importante, segundo a pesquisadora, é o papel crescente das mulheres nesse processo de transformação.

“A transição para sistemas regenerativos exige planejamento de longo prazo, gestão cuidadosa de riscos e visão integrada da propriedade. Essas competências estão muito presentes na atuação feminina no campo, que historicamente envolve organização produtiva, cuidado com as pessoas e gestão financeira da propriedade”, observa.


Para a pesquisadora, a sucessão familiar também abre espaço para novas abordagens produtivas. “Muitas produtoras que assumem propriedades da família enfrentam decisões complexas: manter o modelo tradicional ou avançar para sistemas regenerativos. O Regenera Cerrado ajuda justamente nesse processo, gerando dados em campo e oferecendo mais segurança para essa transição”, argumenta.


Liderança feminina no centro da transformação


A presença de mulheres também é marcante na própria concepção do projeto. Segundo Priscila Callegari, diretora de Agricultura e Meio Ambiente do Instituto BioSistêmico (IBS), o Regenera Cerrado nasceu e se consolidou sob liderança feminina.


Priscila Callegari, diretora de Agricultura e Meio Ambiente do Instituto BioSistêmico
Priscila Callegari, diretora de Agricultura e Meio Ambiente do Instituto BioSistêmico

“Desde a concepção do projeto, mulheres estiveram à frente da coordenação técnica, da articulação institucional e da condução estratégica da iniciativa”, explica.


Na avaliação de Priscila, esse movimento reflete uma mudança estrutural no agronegócio brasileiro. “As mulheres têm assumido posições centrais na gestão das propriedades e na tomada de decisões estratégicas. Na agricultura regenerativa, essa visão de longo prazo é fundamental, porque regenerar envolve cuidar do solo, das pessoas e do futuro da produção”, afirma.


A diretora destaca que o projeto vai além da difusão de boas práticas, tendo em vista que o Regenera Cerrado une ciência aplicada, validação técnica em campo e articulação entre empresas, pesquisadores e produtores. O objetivo é gerar evidências robustas sobre os impactos produtivos, econômicos e ambientais da agricultura regenerativa.


Com esse entendimento, ao integrar produtores, instituições de pesquisa e empresas em uma rede colaborativa, a iniciativa busca acelerar a adoção de práticas regenerativas no Cerrado. “Regenerar não é apenas aplicar novas técnicas. É uma mudança cultural na forma de produzir, que conecta produtividade, conservação e visão de futuro”, conclui.


Sobre o Projeto Regenera Cerrado


Idealizado pelo Instituto Fórum do Futuro em 2022, o Regenera Cerrado tem como propósito disseminar práticas de agricultura regenerativa validadas cientificamente, oferecendo um modelo escalável de produção de soja e milho para o Brasil e o mundo.


Na segunda fase de trabalho, o projeto segue com o patrocínio da Cargill, conta com a coordenação técnico-científica da Embrapa e execução operacional do Instituto BioSistêmico (IBS), além da parceria de sete instituições nacionais e 10 fazendas localizadas na região de Rio Verde, no sudoeste goiano.


As instituições parceiras são: Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), Grupo Associado de Agricultura Sustentável (GAAS), Grupo Associado de Pesquisa do Sudoeste Goiano (GAPES), Instituto Federal Goiano, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade de Brasília (UnB).


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