Impressões de minha última viagem à China
- há 11 horas
- 3 min de leitura

Professor de Economia, analista, escritor, palestrante e colunista de negócios especializado na América Latina e no Caribe.
Na minha recente viagem à China, com participação em eventos, visitas técnicas e conversas com empresários, investidores e acadêmicos, alguns temas me chamaram especialmente a atenção.
O país segue profundamente comprometido com a agenda de economia verde, talvez com ainda mais ênfase do que antes. Mas o ponto mais relevante é que o tema tornou-se parte ainda mais estrutural do modelo de crescimento. No recém-anunciado 15º Plano Quinquenal, a China sinaliza que quer continuar crescendo, mas com menos carbono e muito mais tecnologia. A transição verde passa a ser um vetor de produtividade, eficiência e modernização da economia.
Uma mudança importante é que o carbono começa a funcionar como uma restrição real. Antes, o foco estava na redução da intensidade das emissões; agora, avança-se também para o controle dos níveis totais. Na prática, produzir com menos carbono deixa de ser apenas desejável e passa a ser necessário. Empresas e setores terão que se adaptar, inovar e transformar seus processos para continuar competitivos. Nesse contexto, o governo já selecionou milhares de empresas que deverão reportar de forma detalhada suas emissões (escopos 1, 2 e 3), sob risco de penalidades que podem afetar desde condições de financiamento até acesso a mercados e instrumentos como a Bolsa de Carbono de Xangai. Trata-se de um verdadeiro divisor de águas, com implicações que se estendem às cadeias globais de valor, incluindo o agro brasileiro. De certa forma, emerge um movimento regulatório top-down que transcende fronteiras, não muito distinto do que a União Europeia busca fazer com o CBAM.
A Bolsa de Carbono de Xangai, ainda relativamente recente, já é a maior do mundo, e tudo indica que continuará ganhando escala e relevância. Não é difícil imaginar a China se consolidando como um dos principais hubs globais de precificação e gestão de carbono, com impactos diretos sobre fluxos de comércio, investimento e competitividade internacional.

A agenda verde também é utilizada como locomotiva de política industrial. A China está investindo massivamente em energia limpa, veículos elétricos, novos materiais e tecnologias associadas à economia circular. Não se trata apenas de reduzir emissões, mas de capturar mercados, liderar cadeias produtivas e redefinir vantagens comparativas. Me chamaram atenção as tecnologias altamente sofisticadas em reciclagem e reaproveitamento de materiais, com políticas ambiciosas de “resíduo zero”, inclusive no setor de construção. As implicações econômicas e industriais disso são profundas.
Outro ponto interessante é o que alguns interlocutores chamaram de “IA do bem”: o uso de prioritário da inteligência artificial voltado para saúde, educação, gestão urbana, pesquisa e desenvolvimento, dentre outros, dentro de marcos associados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. A se confirmar, trata-se de uma abordagem que combina inovação com forte coordenação estatal e diretrizes éticas próprias, com características bastante distintas dos modelos ocidentais.
Por fim, impressionam os avanços na área de saúde. A velocidade de inovação, a escala de implementação e a integração com tecnologias digitais sugerem que a China pode se tornar, em um futuro não distante, um dos principais hubs globais em medicina e serviços de saúde.
Em síntese, a China não está apenas “ficando mais verde”. Está usando a agenda verde, a tecnologia e a regulação para redefinir seu modelo de crescimento e sua posição na economia global. Isso traz desafios, e também oportunidades, para países como o Brasil.
Gostou deste artigo?
Siga para nunca perder uma atualização: https://www.linkedin.com/in/jorge-arbache-05b02b8/



Comentários