O MUNDO E MERCADO MUDARAM. EMPRESAS, AINDA NÃO
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Impactos da Nova Ordem Mundial sobre os Negócios de Base
Sustentável – Riscos, Ameaças, Oportunidades e Reposicionamento.

*Fernando Barros
A disputa geopolítica, militar e tecnológica entre China e Estados Unidos desenha com ampla clareza as condições do oceano turbulento em que nações de médio porte e empresas de todos os tamanhos serão obrigadas a navegar nos próximos anos. O fator mais desconcertante é a velocidade exponencial das mudanças. O início de uma nova era tecnológica e, junto com ela, do processo que degrada nas sociedades a percepção de valor e diálogo entre ciência, pesquisa, negócios sustentáveis e as agendas críticas da humanidade, teve várias etapas e marcos: em 1967, quando McLuhan antecipou com precisão a criação da Internet e das Redes Sociais; nos anos 70/80, com os movimentos que deram forma à Ecologia Política e aos direitos do consumidor; em 10 de junho de 2015, quando o Professor Umberto Eco, num evento acadêmico na Universidade de Turim, sintetizou: “O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade".
Mas, ninguém poderia prever a dimensão e o alcance da escalada da ruptura social e econômica. Que o progresso ocorre por um processo de destruição criativa, no qual as tecnologias disruptivas reorganizam mercados, redistribuem investimentos e transformam a forma como a sociedade produz riqueza, nós sabemos desde que Joseph Schumpeter formulou a teoria do desenvolvimento, no começo do século XX.
O rito de passagem, no entanto, nunca foi tão abrupto.
A desorganização de preços dos serviços de produtos e serviços sustentáveis sofreu um primeiro e forte impacto em 3 de janeiro, data da captura de Nícolas Maduro e do início da gestão e controle dos norte-americanos da maior reserva de petróleo do planeta. Não foi um gesto isolado. Antes disso, os EUA saíram do acordo de Paris, anularam programas ambientais, restringiram a “Lei de Redução da Inflação” do Governo Biden, que havia direcionado centenas de bilhões de dólares para financiar a transição energética, com foco principal em eólica, solar e elétrica.
Donald Trump comemorou seus feitos: “Drill, baby, drill”, repetia, estimulando a calcificação do uso da energia de origem fóssil enquanto referencial único da economia global.
No dia 28 de fevereiro, um ataque aéreo de larga escala contra o território iraniano resultou na morte do líder Ali Khamenei e na expectativa da Casa Branca de que seria possível dominar o Irã e o Estreito de Ormuz (até então aberto à navegação) rapidamente, repetindo a Venezuela.
Agora, 6 meses depois, em nova e surpreendente reviravolta, o quadro de imprevisibilidade e insegurança permanentes acelerou a adoção de energias renováveis e o apoio ao combate contra as mudanças climáticas. Basicamente porque as economias que optaram pela dependência do petróleo vivem de sobressaltos, sem conseguir montar uma estratégia que resista a poucas semanas.
Os fatos alteram o mercado e a capacidade de gestão em questão de dias. Muitas vezes pela manhã a realidade é uma, de tarde uma declaração zangada faz o preço do Brent explodir. Empresas e instituições foram surpreendidas numa verdadeira encruzilhada. Os modelos decisórios vigentes (reunião de Boards, aprovação de orçamentos em Assembleias formais, planejamento de metas e de resultados, entre outros) não conseguem oferecer respostas em tempo hábil.
Exigir que executivos elaborem estratégias e orçamentos com um ano de antecedência e sem considerar o contexto externo no qual as decisões de aquisição de produtos por parte dos clientes finais são tomadas tem menos a ver com planejamento e mais com exercício de bruxaria...
O case da BYD é ilustrativo. A empresa lidera com cerca de 18% a 20% o mercado global de veículos eletrificados, caindo no gosto de consumidores brasileiros, franceses, alemães e britânicos. A indústria europeia do setor ainda luta para encontrar uma resposta adequada que as proteja da invasão chinesa do setor.
Nas primeiras semanas do conflito, a União Europeia gastou 6 bilhões de euros a mais com combustíveis fósseis importados. Não demorou para que as energias renováveis entrassem na pauta estratégica de Bruxelas. Hoje, já geram quase metade da eletricidade europeia, ante 36% em 2021. A Itália, mais dependente do gás, sofre mais do que a Espanha, movida mais a sol e vento.
Porém, existem duas agendas que não têm a menor paciência para esperar o amadurecimento de processos lentos e complexos:
a) O verão europeu de 2026, o mais quente da história, decreta:a agenda climática exige soluções imediatas, transnacionais e multilaterais. A seca no Rio Danúbio virou símbolo da integração sistêmica da tragédia/;
b)Os agentes responsáveis pela entrega de soluções sustentáveis (produção de alimentos mais saudáveis e nutritivos, inovações na economia circular, recursos naturais críticos, etc.) não conseguem repassar aos clientes finais os custos operacionais do novo normal. Produtores rurais não dispõem de seguro rural, de acesso a créditos que considerem os serviços ambientais prestados. Inexiste uma política de Estado que transforme os recursos naturais críticos em ativos da negociação de espaço numa disputa de espaços onde normas e regras foram substituídas pelo jogo da força bruta.
A boa notícia: o apetite por soluções sustentáveis aumentou muito e isto escancara uma janela de oportunidades para a economia brasileira.
A má notícia: a falta de paciência para o debate qualificado de temas complexos cresce vertiginosamente, fomenta a agenda de curto prazo.
A Rede de Construção dos Futuros Sustentáveis e o Fórum do Futuro promovem, em novembro, o evento REDESCOBERTA DO BRASIL, no qual esperamos poder aprofundar essas reflexões e extrair proposições que possam pavimentar uma nova rota para o País.
O ponto de partida comum e consensual nós já temos: para ampliar a soberania e o protagonismo do País nas cadeias de valor globalizadas precisar aumentar o volume de exportações dos produtos “Made in Brasil” e diversificar os destinos.
Retornamos novamente ao início do século XX para buscar inspiração na diplomacia do Barão de Rio Branco, que nos ensinou a sobreviver como mariscos entre os rochedos gigantes dos inevitáveis maremotos da cena mundial.
*Jornalista e Diretor Executivo do Instituto Fórum do Futuro.



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