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O mundo continuará fazendo as reformas do Brasil?

  • há 4 dias
  • 4 min de leitura

Há uma regularidade incômoda na história brasileira: muitas das reformas que mudaram o país não nasceram de clarividência doméstica, mas de constrangimentos externos. O Brasil, com frequência, só se move quando o mundo encarece a inércia e transforma o adiamento em risco.

Isso não diminui lideranças, ideias e instituições nacionais. Mas ajuda a explicar por que mudanças profundas, bloqueadas por interesses estabelecidos, ocorrem quando choques internacionais mudam os preços relativos da política.


Antes mesmo da República, o fim do tráfico negreiro e, depois, a própria escravidão foram empurrados por forças internas e externas. A pressão britânica, o isolamento moral e comercial do escravismo e a reorganização do capitalismo internacional tornaram cada vez mais caro sustentar uma instituição que as elites tratavam como indispensável. A abolição veio tarde, sem integração social e sem reforma agrária. Foi uma reforma histórica, mas, também, uma confissão de atraso.


No início da República, crises do café, financiamento externo e vulnerabilidade cambial moldaram instituições e políticas públicas. O Estado brasileiro aprendeu, muitas vezes aos tropeços, que viver de um produto, de um mercado e de crédito externo era uma fragilidade. A defesa do café e instrumentos fiscais e monetários surgiram menos de plano nacional coeso do que da necessidade de administrar a exposição ao mundo.


A industrialização também nasceu sob pressão. As guerras, a Grande Depressão e as restrições às importações empurraram o Brasil para a substituição de importações. Criaram-se capacidades produtivas, empresas, infraestrutura e uma burocracia desenvolvimentista. Não foi marcha inevitável rumo à modernidade. Foi resposta a um mundo que fechou mercados, interrompeu fluxos e obrigou países periféricos a produzir o que antes compravam.


Mais tarde, a criação da Petrobras traduziu a percepção de que depender de energia importada era incompatível com qualquer ambição de desenvolvimento. O choque do petróleo de 1973 levou essa percepção ao limite e abriu espaço para o Proálcool, uma das políticas econômicas mais ousadas do país. A Embrapa seguiu lógica semelhante. Segurança alimentar, balanço de pagamentos e tecnologia tropical deixaram de ser temas setoriais e viraram questão estratégica. O Cerrado não se transformou por acaso: ciência, crédito e necessidade externa redesenharam a agricultura brasileira.


Antes do Plano Real, a crise da dívida, a inflação crônica e a escassez de financiamento externo comprimiram o modelo anterior. O Plano Real, a abertura comercial, as privatizações, a responsabilidade fiscal e o fortalecimento das instituições macroeconômicas não podem ser explicados apenas pelo mundo, mas, tampouco, podem ser entendidos sem ele. Credibilidade, acesso a capitais e competição externa passaram a cobrar uma disciplina que a política doméstica sozinha adiava.


O padrão é claro. O Brasil posterga reformas enquanto o custo da postergação parece administrável. Grupos protegidos capturam benefícios imediatos; os custos ficam espalhados pela sociedade e pelo futuro. Quando o mundo muda, porém, a conta aparece. O que era politicamente improvável passa a ser economicamente inevitável.


A questão provocativa é que esse ciclo está recomeçando. Só que, agora, a restrição externa não será apenas cambial, financeira ou comercial. Ela será climática, tecnológica, regulatória, energética, sanitária e geopolítica. E poderá ser mais implacável, porque virá embutida em padrões privados, algoritmos de risco, regras de bancos, cadeias produtivas e acordos internacionais.


As reformas mais críticas que o mundo deverá pautar no Brasil começam pela agenda climática e ambiental. Não como ornamento diplomático, mas como política econômica dura.


Desmatamento, queimadas, rastreabilidade, regularização fundiária, carbono e proteção de biomas serão variáveis de acesso a mercados, custo de capital e atração de investimentos. A Amazônia deixará de ser símbolo ambiental ou disputa retórica; será teste de governança econômica.


A segunda frente é energia. O Brasil tem matriz relativamente limpa, biocombustíveis, hidrogênio de baixo carbono, eólica, solar, biomassa e minerais críticos. Mas vantagem natural não é estratégia. O mundo exigirá marcos regulatórios estáveis, redes modernas, licenciamento previsível, armazenamento, portos e integração industrial. Sem isso, venderemos potencial barato e compraremos tecnologia cara.


A terceira é a reforma produtiva. A nova globalização será mais seletiva. Empresas buscarão fornecedores resilientes, limpos, digitalizados e politicamente confiáveis. O Brasil pode capturar investimentos de reconfiguração de cadeias, mas terá de enfrentar baixa produtividade, educação frágil, infraestrutura insuficiente, insegurança jurídica e complexidade tributária remanescente. A competição não será apenas por custos; será por confiabilidade.


A quarta é o Estado digital. Inteligência artificial, dados, identidade digital, cibersegurança e serviços públicos integrados mudarão a produtividade do setor público e privado. Países que regularem bem reduzirão custos, fraudes e filas. Países que regularem mal criarão cartórios digitais, concentração e exclusão.


A quinta é demografia. O Brasil envelhece antes de enriquecer. Previdência, saúde, qualificação de adultos, cuidado de idosos, imigração seletiva e participação feminina no mercado de trabalho serão reformas inevitáveis. O mundo cobrará pela comparação: sociedades que organizarem melhor trabalho, tecnologia e proteção social crescerão mais.


A sexta é segurança alimentar, hídrica e sanitária. Água, agricultura tropical e biodiversidade serão ativos centrais num planeta mais quente e instável. Mas ativos sem governança viram desperdício. Será preciso compatibilizar produção, conservação, irrigação, seguro climático, defesa sanitária e ciência.


Talvez a pergunta correta não seja se o Brasil fará essas reformas. A pergunta é se as fará por escolha ou por susto. A história sugere pessimismo: preferimos procrastinar e esperar a emergência, quando a reforma sai mais cara, mais abrupta e mais injusta. Mas o futuro oferece uma diferença. Pela primeira vez em muito tempo, a agenda que o mundo nos impõe coincide com alguns dos maiores ativos nacionais.


Energia limpa, água, alimentos, biodiversidade, minerais, ciência tropical e mercado interno podem colocar o Brasil no centro da próxima economia. Mas só se o país parar de tratar vantagem comparativa como destino. O mundo continuará fazendo reformas no Brasil enquanto o Brasil insistir em não fazê-las por si. A provocação é simples: desta vez, talvez a soberania não esteja em resistir à pressão externa, mas em antecipá-la.


Jorge Arbache é professor da Universidade de Brasília e da Fundação Dom Cabral e senior fellow do Instituto Clima e Sociedade.


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