Vale da Morte: os desafios de levar o conhecimento e as tecnologias para a o dia a dia da sociedade

Atualizado: 22 de set. de 2021




O terceiro debate do “Seminário Internacional Os Desafios da Ciência em Novo Pacto Global do Alimento”, promovido na manhã da terça-feira, 15/06, teve como tema a Ciência e a Sociedade, com foco em intensificar o protagonismo da ciência nos processos de desenvolvimento sustentável, com a ampliação dos serviços prestados pelo conhecimento à sociedade.

Os debates se focaram em responder uma pergunta central: como superar o vale da morte que separa as pesquisas e tecnologias desenvolvidas nas universidade e o dia a dia da sociedade, principalmente no cenário brasileiro?

Neste sentido, o Presidente do CNPq e coordenador Científico do Fórum do Futuro, Evaldo Vilela, abriu as discussões, destacando quais aspectos da agenda científica brasileira precisam ser enfrentados para acelerar o protagonismo da ciência como instrumento do processo civilizatório.

“A ciência trabalha com a geração de novos conhecimentos e, aplicá-los, é quando podemos beneficiar a sociedade, resolvendo os problemas e seus desafios. Todas as vezes que buscamos associar a ciência e o resultado da pesquisa para beneficiar a sociedade brasileira, nós encontramos gargalos e dificuldades. Particularmente aqueles que conhecemos como ‘Vale da Morte’, conceito que se aplica no momento em que encontramos novos conhecimentos e queremos transbordar essas descobertas para o mercado”, explica ele.

Segundo Vilela, o principal gargalo é a questão do capital, do recurso para avançar. “No Brasil o cenário é diferente de outros países onde o dinheiro é acessado mais facilmente. Por aqui esse processo, da ciência chegar ao mercado é mais difícil, pois temos juros muito altos. Tomar dinheiro para investir com risco tecnológico no nosso país tem sido um grande problema”, afirma.

“Precisamos destacar que esse cenário tem melhorado, com quedas nos juros. Esperamos que essa redução nas taxas continue acontecendo para que os empresários brasileiros não tenham que buscar lá fora inovação, pois quando ele compra tecnologia internacional, deixa de adquirir os conhecimentos das nossas universidades”, reforça Vilela.

Representando o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, o pesquisador Thyrso Vilela, também falou sobre o “Vale da Morte”, destacando o fato do abismo ser mais profundo nas economias tropicais.

“A grosso modo podemos dizer que sim, a profundidade do vale da morte nas economias tropicais é sim maior. Nos países em desenvolvimento, onde não há uma preocupação mais clara de se agregar conhecimento às atividades, essa é a realidade”, destaca.

Mas como agregar conhecimento? O pesquisador afirma que a melhor forma é agregando pessoas que tem condições de entender o que está acontecendo e domínio das tecnologias associadas às atividades econômicas.

Segundo ele, para superar esse abismo existente entre o conhecimento das academias e aqueles que as empresas precisam para desenvolver é necessário o uso de métricas de gerenciamentos tecnológicos. Para isso, é necessário fazer um trabalho que proporcione que as universidades entendam, de maneira clara, os desafios do mercado e incentive que os profissionais se mantenham atualizados.

“Outro ponto de importância é incentivar que as indústrias contratem para seus quadros de funcionários, profissionais qualificados, de preferência recém-saídos das universidades. Esse movimento facilita a simbiose entre os conhecimentos da academia e as indústrias”, enfatiza.

A ciência e o empreendedorismo

Destacando os desafios da aterrissagem do conhecimento científico na realidade dos Polos Demonstrativos do Projeto Biomas, o gerente nacional de produtividade do SEBRAE Nacional, Cesar Rissette, falou sobre as ações do órgão no cenário do empreendedorismo sustentável.

“O conhecimento que aterrissa gera mais riqueza e mais condições de empregabilidade das pessoas, além de maior produtividade e qualidade. Nosso trabalho tem se focado no fato das nossas iniciativas, que se traduzem na prática, quando estamos atendendo os pequenos produtores rurais, levem tecnificação até eles”, conta Rissette.

Ele afirma que o processo de reconhecimento, cada vez mais, tem ganhado espaço nos hábitos dos consumidores que buscam saber a origem dos produtos até chegar a mesa do consumidor, está cada vez mais na palma da mão.

“Temos que olhar o mercado e perceber as tendências. Isso tem tudo a ver com ciência, com conhecimento. Fazer com que isso chegue ao consumidor e que, com isso, o produtor adote as melhores práticas em suas propriedades”, reforça ele.

Políticas públicas para aproximar o conhecimento da sociedade

Trazendo a visão do poder público sobre a questão e como eles podem contribuir para o processo de aproximação da ciência e a sociedade, o Coordenador-Geral de Ciência para Bioeconomia do MCTI | Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, Bruno Nunes destacou duas ações da Secretaria de Pesquisa e Formação Científica (SEPEF), do Ministério de Ciência, Tecnologias e Inovações.

Um deles é o Projeto ODBIO (Oportunidades e Desafios da Bioeconomia), que busca elaborar uma estratégia de implementação do PACTI Bioeconomia (Plano de Ação em Ciência, Tecnologia e Inovação em Bioeconomia) e subsidiar a formulação de políticas nacionais para a definição de programas e projetos estruturantes, mobilizadores e orientados por missão de aproveitamento das oportunidades e a superação dos desafios apresentados pela bioeconomia.

“Sabemos dos vários desafios enfrentados, que vão desde a descoordenação e falta de uma governança, até objetivos claros e projetos de longo prazo, focados no tema. Nesse sentido, estamos fazendo essa agregação de informações e nos reunindo com diversos setores para debater os principais pontos da bioeconomia”, explica.

Nesse sentido, ele destaca que a primeira fase do projeto buscou responder o que é a bioeconomia para o Brasil, tendo em vista a realidade do país. “Levantamos dados para entender como pensar a bioeconomia, o que fazer e entender como mobilizar todos os atores desse sistema”, acrescenta ele.

Outra ação é o Programa Cadeias Produtivas Da Bioeconomia, que tem como objetivo fomentar a pesquisa científica, o desenvolvimento tecnológico e a inovação para a promoção, agregação e retenção de valor em cadeias produtivas da biodiversidade brasileira, considerando a sua sustentabilidade e a melhoria da qualidade de vida das populações que dela dependem.

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