2021: CAMPO MINADO

Atualizado: 20 de out. de 2021




Imagine um grande reservatório de água em nível satisfatório. Durante dois trimestres, ocorre um desastre extremo e inesperado que leva o reservatório a secar cada vez mais. A partir do terceiro trimestre, o governo toma medidas adequadas para restabelecer o nível do reservatório. Como as decisões tomadas foram determinantes para a expansão das águas no reservatório, as taxas de crescimento do volume de água são muito elevadas, como elevadas foram também as taxas de esgotamento do reservatório. Ao fim e a cabo, o reservatório volta ao nível pré-desastre.

Essa imagem ilustrativa é para alertar que as elevadas taxas de crescimento dos negócios que são observadas atualmente refletem o renivelamento das atividades econômicas, o qual vem ocorrendo, felizmente, de forma bastante acentuada. Não se trata, contudo, da retomada do crescimento de uma economia que se encontra semiestagnada desde 2014, mas, simplesmente, de um renivelamento conjuntural dos patamares de renda e emprego pré-pandemia. Quais as perspectivas para a economia brasileira em 2021?

Se o Governo Federal não sair do seu imobilismo propositivo, a economia brasileira será, em 2021, um campo minado de incertezas e de riscos para os agentes e as instituições que tomam decisões, no sentido de estimular o consumo, de produzir e de investir. As incertezas são inúmeras e os riscos inefáveis. Nada surpreendente face a um governo que se nega a planejar o médio e o longo prazo da economia nacional, optando por ajustes incrementais de curto em curto prazo.

É provável que a retirada dos auxílios emergenciais, no primeiro trimestre do próximo ano possa mergulhar a economia em um novo período recessivo. Há dúvidas sobre qual será a estratégia do Governo Federal para a política econômica pós-pandemia, visando a reduzir as taxas de desemprego. Dúvidas há também sobre como será tratado o processo inflacionário a fim de evitar que ele se torne inercial.

Essas incertezas pesam fortemente nas decisões de investimentos. O crescente nível de poupança, observado atualmente, que poderia se destinar a investimentos financeiros ou a investimentos direta ou indiretamente produtivos. Em épocas de incertezas estruturais, há uma forte preferência pela liquidez, que proporciona um sentimento de liberdade e segurança. Como os investimentos produtivos são uma decisão orientada para o futuro e operam em um ambiente de extrema volatilidade, os mesmos possuem aspectos de extrema irreversibilidade, diferentemente de aplicações financeiras de curto prazo, muitas das quais Frank Hahn denominou de “lugares de repouso e de tranquilidade” do dinheiro.

O Brasil vive, atualmente, uma fase de homeostase econômica, ou seja, há uma tendência autorreguladora do organismo econômico que permite manter, pelo menos, o estado de equilíbrio interno de seus grupos de interesse essenciais (os rentistas, os movimentos sociais, etc.), ou porque estão usufruindo de generosas taxas de juros reais ou porque estão conformados com as benesses distributivas e com as políticas sociais compensatórias.

Alertamos, contudo, que a ausência de uma nova estratégia de política econômica, que promova a retomada dos níveis de renda e de emprego em 2021, poderá resultar em pontos de inflexão ou de ruptura político-institucionais, colocando à prova a resiliência de um sistema em homeostase econômica.

Paulo R. Haddad é professor emérito da UFMG. Foi Ministro do Planejamento e da Fazenda no Governo Itamar Franco.

Texto originalmente publicado no jornal O Tempo em 17/12/20.

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