top of page

O que a importação de carne brasileira pela Argentina sugere?

  • 10 de ago. de 2025
  • 3 min de leitura

Nas últimas seis décadas, diversos países da América Latina, em especial no Cone Sul, enfrentaram crises inflacionárias prolongadas. Entre as respostas recorrentes, destaca-se o uso de três instrumentos combinados: valorização artificial da taxa de câmbio, congelamento de preços internos e liberalização das importações para aumentar a oferta de bens e pressionar os preços para baixo.


Programas como o Plan Austral (Argentina, 1985), o Plan Cruzado (Brasil, 1986) e experiências no Chile e Uruguai nos anos 1970-1980 utilizaram essa abordagem. Embora possam gerar alívio inflacionário temporário, historicamente produziram severos desequilíbrios externos e quedas abruptas na confiança.


Segundo a CEPAL e o Banco Mundiall, a região passou por pelo menos oito programas desse tipo entre 1965 e 1995. Em praticamente todos, a trajetória foi: fase inicial de desaceleração da inflação, aumento do consumo e crescimento do PIB; fase intermediária de deterioração das contas externas, aumento das importações e perda de reservas internacionais; e fase final de crise cambial, desvalorização abrupta, recessão e aceleração inflacionária.


Exemplos incluem o Chile (1979-1982) com “tablita” que fixava minidesvalorizações do peso; as importações cresceram 80% em dois anos, mas o déficit em conta corrente chegou a 14% do PIB, levando a uma crise bancária; Brasil (Plano Cruzado, 1986), com congelamento de preços e câmbio fixo; após 12 meses, a inflação voltou acima de 20% ao mês e o déficit em conta corrente cresceu 4 pontos do PIB; e Argentina (Plan Austral, 1985), que inicialmente reduziu a inflação de 30% para 5% ao mês, mas logo perdeu sustentação.


A Argentina registra inflação anual superior a 270% e enfrenta forte volatilidade cambial. O governo atual, em um contexto de eleições iminentes (previstas para outubro de 2025), tem adotado uma estratégia que remete às “estabilizações heterodoxas” passadas. Um indicador simbólico desse processo é o aumento das importações de carne bovina brasileira. Embora partindo de uma base muito baixa, as compras cresceram substancialmente nesse ano. O fato de um dos maiores exportadores mundiais de carne importar o produto se deve, obviamente, a distorções internas de preços, o que é sintomático de desajustes profundos.


Quando um país mantém o câmbio valorizado e controla preços internos, as importações ficam artificialmente baratas, o que pressiona a produção local; as exportações perdem competitividade, o que reduz entrada de divisas; as reservas internacionais caem para financiar o déficit em conta corrente; e as expectativas se deterioram à medida que agentes percebem a insustentabilidade da política. Esse ciclo, há muito descrito em Krugman & Taylor (1978) e confirmado por experiências latino-americanas, leva a crises cambiais e recessões abruptas e profundas.


Se a Argentina mantiver a atual trajetória, é possível que o déficit em conta corrente aumente ainda mais em 2025; as reservas líquidas, que já se encontram em patamar negativo, entrem em situação ainda pior; e a confiança do investidor caia, deteriorando o risco-país e encarecendo crédito externo.


Historicamente, a saída de programas desse tipo implicou em controle cambial, fortes desvalorizações, aumento da inflação e recessões severas, como no “efeito tequila” (México, 1994) ou na própria crise argentina de 2001-2002.


Estudos bem conhecidos (Dornbusch & Edwards (1990), Pastor & Damill (2018), et all) sugerem que políticas de estabilização sem reformas estruturais -- fiscal, institucional, de produção, de competitividade e de produtividade - têm efeito efêmero e passageiro, se muito.


No Cone Sul, as lições da nossa história de política econômica sugerem evitar sobrevalorização prolongada do câmbio, não distorcer o sistema de preços por longos períodos, manter disciplina fiscal e realismo nas metas de inflação e fortalecer credibilidade institucional para ancorar expectativas.


O aumento das importações de carne brasileira pela Argentina é mais do que um dado curioso: é um sintoma de desequilíbrio micro e macroeconômico que, se não corrigido, pode levar a mais crises.


O histórico das políticas de estabilização no Cone Sul mostra que este é um caminho perigoso. A gestão econômica requer coerência entre instrumentos, realismo cambial e políticas produtivas e de produtividade. Sem isso, o risco de repetir o ciclo histórico pode sr elevado.


Comentários


© 2022 criado por educadoragil.com.br

bottom of page