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Brasil: potência na soja, mas ainda distante das etapas de maior valor

  • há 1 dia
  • 4 min de leitura

 

*Giovanna Roncato

 

O Brasil se transformou, nas últimas décadas, em uma das maiores potências mundiais da soja. O crescimento foi impressionante: aquilo que no início dos anos 2000 representava cerca de US$ 3 bilhões em exportações passou a superar US$ 50 bilhões nos anos mais recentes. A soja ganhou espaço na pauta brasileira e o País consolidou uma posição de destaque no comércio internacional. Os números de participação no mercado mundial e os indicadores de vantagem comparativa confirmam aquilo que já se tornou evidente para qualquer observador do agronegócio: o Brasil é extremamente competitivo na produção de soja. 


Mas há uma pergunta menos óbvia por trás desse sucesso: quanto desse crescimento representa, de fato, uma mudança na posição do Brasil dentro da cadeia de valor da soja?

Produzir e exportar muito não significa necessariamente capturar uma parcela maior do valor gerado pela cadeia. A soja percorre um longo caminho entre a propriedade rural e o consumidor final. Depois da produção, vêm armazenamento, transporte, esmagamento, produção de óleo e farelo, processamento industrial, distribuição e comercialização. São etapas diferentes, realizadas por diferentes empresas e, muitas vezes, em diferentes países.


É justamente aí que aparece o principal resultado do trabalho. O Brasil ampliou enormemente sua participação no mercado mundial de soja, mas esse avanço não veio acompanhado, na mesma proporção, de uma maior presença nas etapas de processamento e transformação.

A evolução das exportações brasileiras mostra uma especialização cada vez maior na soja em grão. Quando se observa conjuntamente a soja, o óleo e o farelo, a participação relativa dos produtos processados nas exportações brasileiras caiu ao longo do período analisado. Entre 2001 e 2008, óleo e farelo representavam, em média, 43,2% das exportações do complexo da soja. Essa participação caiu para 28,8% entre 2009 e 2016 e chegou a 20,4% entre 2017 e 2024.


Isso não significa que o Brasil tenha deixado de processar soja ou que as exportações de óleo e farelo tenham necessariamente diminuído em termos absolutos. O que aconteceu foi diferente: a soja em grão cresceu em velocidade muito maior. O País passou a exportar volumes e valores cada vez maiores, mas principalmente na forma de matéria-prima.

A comparação com outros grandes produtores ajuda a entender o fenômeno. A Argentina, por exemplo, apresenta uma estrutura exportadora muito mais concentrada em produtos processados, com participação média de óleo e farelo chegando a 85% no período mais recente.

O Brasil, ao contrário, aprofundou sua posição como grande fornecedor mundial de soja em grão.


E existe um personagem fundamental para entender essa história: a China.


Ao longo das últimas décadas, o mercado chinês ganhou importância extraordinária para a soja brasileira. A participação da China nas exportações brasileiras do complexo da soja passou de aproximadamente 10% em 2001 para cerca de 59% em 2024, chegando a 67% em 2018.


A questão não é apenas o tamanho desse mercado, mas o que a China compra. O país importa principalmente soja em grão e realiza posteriormente o processamento, transformando a matéria-prima em farelo e óleo. Assim, o Brasil produz e exporta uma parcela crescente da matéria-prima, enquanto etapas posteriores da cadeia são realizadas no país comprador.


Essa dinâmica ajuda a explicar um paradoxo importante: o Brasil pode ganhar cada vez mais dinheiro com a soja e, simultaneamente, continuar concentrado nas etapas iniciais da cadeia produtiva.


O comércio internacional, portanto, não deve ser avaliado apenas pela quantidade exportada.


Uma economia pode se tornar extremamente competitiva em determinado produto sem necessariamente avançar para as atividades de maior valor agregado. No caso da soja, isso significa distinguir entre ser uma grande potência produtora e exportadora e participar de maneira mais ampla das etapas de processamento, transformação, distribuição e comercialização.


As regulamentações internacionais entram justamente nesse cenário. O mercado europeu é um dos mais regulados do mundo e estabelece exigências relacionadas a resíduos de pesticidas, sustentabilidade, rastreabilidade e padrões ambientais. O estudo analisa, em particular, o Regulamento (CE) nº 396/2005, que estabeleceu limites máximos de resíduos de pesticidas para produtos comercializados na União Europeia. A experiência mostra que regulamentações não precisam ser vistas exclusivamente como barreiras: podem elevar custos e criar dificuldades de acesso, mas também podem estimular padrões mais elevados de qualidade, organização produtiva e previsibilidade nas relações comerciais.


A questão mais ampla, portanto, não é simplesmente saber se uma regulamentação aumenta ou reduz exportações. É entender como as regras internacionais interferem na forma como os países participam das cadeias globais de produção.


No caso brasileiro, os resultados apontam para uma situação bastante particular. O País conseguiu construir uma das maiores histórias de sucesso do agronegócio mundial, combinando tecnologia, produtividade, disponibilidade de recursos naturais, expansão da infraestrutura e capacidade empresarial. Tornou-se um fornecedor indispensável para o mercado global. Mas essa mesma trajetória também reforçou sua especialização na produção de uma commodity primária.


Isso coloca um desafio para a próxima etapa do desenvolvimento do complexo da soja: como transformar liderança na produção em maior participação nas etapas de maior valor?


A resposta não está em abandonar a produção de commodities, justamente onde o Brasil possui uma vantagem competitiva extraordinária, mas em ampliar as oportunidades ao redor dela.


Maior processamento doméstico, diversificação de mercados, desenvolvimento tecnológico, infraestrutura, logística e capacidade de atender padrões internacionais podem permitir que uma parcela maior do valor gerado pela cadeia permaneça no País.


O caso da soja mostra, assim, que competitividade e captura de valor não são sinônimos. O Brasil venceu a disputa para se tornar uma potência mundial da soja. O próximo desafio é fazer com que essa liderança ultrapasse a porteira e alcance, cada vez mais, as etapas seguintes da cadeia.

 

*Aluna do Professor Jorge Arbache (Economia UnB).

 

 
 
 

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